Home / Economia / Projeto de seleção da Farm gera polêmica: designer acusa uso indevido de criação

Projeto de seleção da Farm gera polêmica: designer acusa uso indevido de criação

Na última semana, a designer de moda Maria Clara Franklim acusou a marca Farm de ter reproduzido, em sua nova coleção, um projeto desenvolvido por ela durante um processo seletivo da empresa, gerando debate sobre direitos autorais no setor fashion. O vídeo divulgado pela criadora no Instagram já ultrapassa dois milhões de visualizações e trouxe à tona questionamentos sobre a propriedade intelectual de trabalhos realizados em testes de seleção. O caso ganhou repercussão nacional, envolvendo especialistas em direito autoral e representantes da indústria da moda.

Desdobramento da acusação

Maria Clara relata que recebeu o desafio da Farm no dia 11 de novembro, com prazo de quatro dias para conceber uma coleção inspirada nas memórias da avó. O conceito, batizado de “Criada com Vó”, utilizou elementos como roupas de filtro de barro, liquidificador, retalhos de tecidos antigos e rendas delicadas, além de referências a móveis de madeira e jardins familiares.

Após concluir o trabalho, a designer enviou o moodboard, a paleta de cores e quatro looks ao time de recrutamento da empresa. Meses depois, ao acompanhar as publicações da Farm nas redes sociais, percebeu que a nova coleção apresentava peças muito semelhantes às que havia criado, incluindo combinações de cores e detalhes de acabamento.

Na legenda do vídeo, Maria Clara descreveu a situação como “interessante” e apontou que a coincidência a fez refletir sobre seu próprio potencial criativo. Ela não recebeu nenhum contato da Farm para comentar o assunto, e a empresa ainda não se pronunciou oficialmente.

O que dizem os especialistas em propriedade intelectual

Especialistas consultados pelo portal de notícias explicam que a realização de testes práticos em processos seletivos não confere automaticamente à empresa o direito de explorar comercialmente as criações dos candidatos. Segundo Luciano Andrade Pinheiro, mestre em propriedade intelectual, o teste não constitui contrato de trabalho nem de prestação de serviços, o que mantém os direitos autorais com o criador.

Pinheiro enfatiza que, para que a empresa possa usar a obra, é necessária autorização expressa do titular dos direitos. Ele alerta que a simples participação em um concurso interno não gera cessão automática de propriedade intelectual, a menos que haja cláusula clara nesse sentido.

Fernanda Picosse, advogada especialista em marcas e patentes, acrescenta que o limite pode ser ultrapassado quando a empresa utiliza a solução desenvolvida como parte de um problema real do negócio, transformando-a em um produto comercial. Nesse cenário, o trabalho pode ser caracterizado como prestação de serviço, gerando direito a remuneração para o candidato.

Ambas as especialistas concordam que a análise de semelhança deve ser feita caso a caso, comparando os elementos concretos das criações. O direito autoral protege a expressão da ideia, não a ideia em si, portanto, detalhes como combinação de tecidos, disposição de estampas e escolha de acessórios são fundamentais para a avaliação.

Como os candidatos podem se proteger

Para evitar situações semelhantes, os profissionais que participam de processos seletivos devem adotar medidas preventivas. A seguir, listamos recomendações práticas que ajudam a resguardar a autoria e a possibilidade de reivindicar direitos caso haja uso indevido.

  • Documentar todas as etapas do projeto, incluindo esboços, moodboards, e versões digitais com timestamps.
  • Guardar e-mails ou mensagens que comprovem a participação no processo seletivo e o envio da proposta.
  • Exigir a assinatura de um termo de confidencialidade que deixe claro que a empresa não adquire direitos sobre a criação sem compensação.
  • Registrar a obra em órgão competente, como a Biblioteca Nacional ou o Escritório de Direitos Autorais, antes de enviá‑la ao recrutador.
  • Consultar um advogado especializado antes de assinar qualquer contrato que contenha cláusulas de cessão de direitos.

Além dessas práticas, é aconselhável que o candidato solicite uma cópia do edital ou das instruções do teste, verificando se há menção a eventual uso comercial das ideias apresentadas. Caso a empresa peça a assinatura de um termo que autorize o uso da criação, o profissional deve analisar cuidadosamente as condições e, se necessário, negociar um acordo de remuneração.

Luciano Pinheiro destaca que a ausência de cláusulas específicas pode ser interpretada como falta de consentimento, permitindo ao candidato reivindicar seus direitos em eventual disputa judicial. Ele recomenda ainda que, ao enviar o material, o candidato inclua um aviso de copyright, por exemplo, “© Maria Clara Franklim 2024”.

Fernanda Picosse alerta que, mesmo com documentação, a defesa pode ser complexa caso a empresa argumente que a semelhança é fruto de tendências de mercado ou de inspiração comum. Por isso, a prova de autoria deve ser robusta, demonstrando a data de criação e a originalidade dos elementos utilizados.

O debate gerado pelo caso também trouxe à tona a necessidade de revisão das políticas de recrutamento nas indústrias criativas. Muitas empresas ainda utilizam testes de design como ferramenta de seleção, mas pouco se fala sobre a proteção dos direitos dos participantes.

Especialistas sugerem que as organizações adotem termos padronizados que esclareçam que as criações são de uso interno apenas para avaliação, e que qualquer exploração comercial exigirá negociação prévia com o autor. Essa prática pode evitar litígios e melhorar a reputação da marca perante profissionais talentosos.

Enquanto isso, Maria Clara Franklim mantém sua postura de cautela, preferindo não comentar o caso diretamente com a imprensa. Ela tem se concentrado em divulgar seu portfólio e em buscar apoio de colegas da comunidade de moda para fortalecer sua posição.

O caso ainda está em desenvolvimento, e a Farm pode decidir responder publicamente ou buscar um acordo extrajudicial. De qualquer forma, a situação serve como alerta para designers, agências de recrutamento e empresas que precisam equilibrar a busca por talentos com o respeito à propriedade intelectual.

Em síntese, a controvérsia evidencia a importância de clareza contratual e de medidas preventivas por parte dos candidatos. O respeito mútuo entre criadores e empregadores é essencial para garantir inovação sustentável no mercado da moda.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

loader-image
Guarulhos, BR
4:57 am, set 27, 2026
temperature icon 18°C
Névoa de fumaça
1017 mb
Hora
5:00 am
temperature icon
16°/17°°C 0 mm 11% 7 Km/h 84% 1019 mb 0 cm
8:00 am
temperature icon
17°/21°°C 0 mm 7% 9 Km/h 72% 1019 mb 0 cm
11:00 am
temperature icon
23°/26°°C 0 mm 3% 11 Km/h 54% 1017 mb 0 cm
2:00 pm
temperature icon
21°/25°°C 0 mm 11% 18 Km/h 62% 1014 mb 0 cm
5:00 pm
temperature icon
17°/20°°C 0 mm 19% 13 Km/h 80% 1016 mb 0 cm
8:00 pm
temperature icon
16°/17°°C 0.01 mm 30% 12 Km/h 88% 1018 mb 0 cm
12:00 am
temperature icon
16°/16°°C 0.03 mm 33% 10 Km/h 90% 1017 mb 0 cm
3:00 am
temperature icon
16°/16°°C 0 mm 28% 9 Km/h 90% 1016 mb 0 cm