Pesquisadores das Universidades Federal do Rio de Janeiro e Estadual do Maranhão anunciaram, em 2024, a conclusão de estudos que apontam o inhame como fonte promissora de compostos anticâncer. Os resultados foram divulgados em conferências nacionais e publicados em revistas internacionais de biomedicina.
A busca por terapias mais seletivas
Os quimioterápicos tradicionais ainda são a base do tratamento oncológico, mas seu uso costuma causar efeitos colaterais graves devido à ação indiscriminada sobre células saudáveis. Essa realidade tem motivado cientistas a procurar alternativas que atinjam exclusivamente as células tumorais, reduzindo a toxicidade sistêmica.
Nos últimos anos, a flora nativa do Brasil tem sido explorada como um reservatório de moléculas bioativas com alta complexidade estrutural. Entre as plantas investigadas, destaca‑se o taro, popularmente conhecido como inhame, que cresce abundantemente em regiões tropicais do país.
A tarina e suas propriedades biológicas
O componente central da pesquisa é a tarina, uma proteína lectina extraída do cormo subterrâneo do inhame. Lectinas vegetais são reconhecidas por sua capacidade de se ligar a carboidratos específicos na superfície das células, o que pode desencadear respostas antitumorais.
Estudos pré‑clínicos já haviam sugerido que a tarina possui atividade antiviral, inseticida e, sobretudo, antitumoral. A equipe brasileira isolou a proteína com pureza superior a 90% e descreveu sua estrutura tridimensional em um banco de dados internacional.
Além da ação direta contra o crescimento celular, a tarina demonstrou propriedades imunomoduladoras, estimulando respostas do sistema imune que favorecem a eliminação de células malignas.
- Diabetes
- Hemorragia
- Diarréia
- Hipertensão
- Alopecia
Essas indicações tradicionais reforçam a ideia de que o inhame contém múltiplos princípios ativos capazes de intervir em processos fisiológicos complexos.
Nanotecnologia e a entrega direcionada da tarina
Para potencializar o efeito da tarina, os pesquisadores recorreram à nanotecnologia, encapsulando a proteína em nanolipossomas. Essa estratégia protege a molécula da degradação no organismo e permite que ela seja liberada de forma controlada no microambiente tumoral.
Os testes in vitro mostraram que a formulação nanométrica inibiu a proliferação de duas linhas celulares agressivas: a MDA‑MB‑231, representativa do câncer de mama triplo‑negativo, e a U‑87 MG, modelo de glioblastoma.
Importante destacar que, ao contrário das células saudáveis, as linhas de controle não apresentaram sinais de toxicidade, indicando alta seletividade da nano‑formulação.
O mecanismo de ação envolve interrupção do ciclo celular, ativação de vias de apoptose e autofagia, e redução da capacidade migratória das células cancerosas, sugerindo um efeito antimetastático.
Os efeitos foram avaliados em exposições de 24 e 48 horas, revelando que a liberação sustentada da tarina pelos lipossomos aumenta a eficácia ao longo do tempo.
Desafios e perspectivas futuras
Um dos maiores obstáculos no tratamento de glioblastoma é a barreira hematoencefálica, que impede a passagem de muitas substâncias terapêuticas. Para contornar esse problema, a equipe desenvolveu um modelo in vitro da barreira usando células endoteliais cerebrais humanas.
Os experimentos demonstraram que, após 180 minutos, cerca de 20% da dose inicial de nanolipossomas contendo tarina conseguiu atravessar a barreira, um resultado promissor para futuras aplicações clínicas.
O financiamento da FAPERJ foi crucial para avançar nas etapas de otimização da formulação e na realização de estudos de biodisponibilidade.
Próximos passos incluem testes em modelos animais de câncer de mama e glioblastoma, bem como a avaliação da farmacocinética e da segurança em longo prazo.
Se os resultados em animais corroborarem os achados in vitro, a tarina encapsulada poderá avançar para ensaios clínicos fase I, marcando a primeira vez que um composto derivado de inhame chega ao cenário de terapia oncológica humana.
Além do potencial terapêutico, a pesquisa reforça a importância da biodiversidade brasileira como fonte de novos fármacos. A conservação de ecossistemas nativos garante o acesso a recursos genéticos ainda desconhecidos que podem transformar o futuro da medicina.
Em síntese, a combinação de conhecimento tradicional sobre o inhame com tecnologias avançadas como a nanotecnologia abre caminhos inovadores para combater o câncer de forma mais eficaz e menos invasiva.








