A professora Madeleine Cova, natural de La Guaira, na Venezuela, vive um intenso luto depois dos terremotos que sacudiram o norte do país em 24 de junho. O desastre tirou a vida de mais de duzentos de seus alunos, deixando a educadora em estado de tristeza profunda. Ela relata que, apesar de sua família estar bem, a dor pela perda dos estudantes permanece constante.
Um vínculo que ultrapassava a sala de aula
Madeleine não era apenas professora de espanhol e literatura; ela era confidente, mentora e quase mãe para muitos jovens. Em entrevistas, ela descreve como os adolescentes lhe contavam seus problemas, metas e sonhos, criando laços que iam muito além do currículo escolar.
Ela costumava participar de aniversários, almoços e até de pequenas excursões com os estudantes. Essa proximidade fez com que a perda fosse sentida como a morte de próprios filhos.
Para ilustrar a intensidade desse relacionamento, a professora compartilha alguns momentos marcantes:
- Conversas diárias sobre desafios pessoais e acadêmicos;
- Participação em festas de aniversário dos alunos;
- Visitas a casas de estudantes para apoio emocional.
Essas interações reforçaram a sensação de responsabilidade e carinho que Madeleine sente até hoje.
A tragédia que abalou La Guaira
O dia 24 de junho ficou marcado na memória da região como o momento em que dois fortes tremores atingiram o estado de La Guaira, provocando desabamentos de escolas, casas e infraestruturas. O governo oficializou mais de 6,5 mil mortos, enquanto fontes independentes apontam para milhares de desaparecidos ainda não contabilizados.
Na escola privada Alejandro Otero, onde Madeleine lecionava, 15 alunos foram confirmados mortos. Na escola pública Juan José Mendoza, onde ela também atuava como coordenadora, o número chegou a 115 estudantes falecidos nas primeiras contagens, crescendo para mais de 230 conforme as investigações avançaram.
Além das fatalidades, a tragédia deixou um rastro de feridos, órfãos e crianças deslocadas. Dados oficiais mostraram que:
- 11 escolas desabaram completamente;
- 1.017 instituições sofreram danos estruturais;
- 86 mil crianças foram realocadas em escolas diferentes para garantir a continuidade dos estudos.
Esses números revelam a magnitude do impacto social e educacional causado pelos sismos.
O luto diário e a busca por resiliência
Madeleine descreve sua tristeza como um estado de luto permanente, que não se resolve com o tempo. Ela admite sentir culpa ao tentar se divertir, pois tem medo de esquecer o que seus alunos representavam.
Em um vídeo publicado no TikTok em julho, a professora dedicou uma homenagem aos estudantes desaparecidos, mostrando fotos e trechos de aulas. A mensagem, que incluía a frase “Vocês não mereciam ir embora”, viralizou e trouxe apoio de milhares de internautas.
Além das redes sociais, ela mantém contato constante com as mães que perderam filhos. As conversas são marcadas por um apoio mútuo, onde cada parte tenta encontrar forças para seguir em frente.
Para lidar com a dor, Madeleine tem adotado algumas práticas que compartilha com colegas educadores:
- Escrever diariamente em um diário de sentimentos;
- Participar de grupos de apoio psicossocial oferecidos por ONGs;
- Incluir momentos de memória coletiva nas aulas, como lembranças e celebrações de vida.
No início do novo ano letivo, em 14 de setembro, a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, fez um pronunciamento lembrando as crianças e adolescentes que perderam a vida. A fala oficial tentou reconhecer a dor das famílias e reforçar o compromisso do Estado com a reconstrução das escolas.
Apesar das declarações governamentais, Madeleine destaca que a realidade nas salas de aula ainda é de escassez de recursos, salas superlotadas e um número crescente de estudantes que carregam traumas não tratados.
Ela conclui que, embora a dor seja imensa, o ato de lembrar e honrar cada vida perdida é essencial para a cura coletiva. “Tive o privilégio de amar esses jovens como se fossem meus filhos”, afirma, reforçando a importância de manter viva a memória dos que se foram.







