Um estudo recente publicado na revista Translational Psychiatry, da Nature, analisou o efeito da tirzepatida – comercializada como Mounjaro – em pacientes adultos com sobrepeso ou obesidade e diagnóstico de depressão maior. A pesquisa, conduzida por psiquiatras e epidemiologistas de Taiwan, utilizou dados de mais de 200 milhões de pessoas disponíveis na rede TriNetX em 2026.
Metodologia e perfil dos participantes
Os pesquisadores selecionaram prontuários eletrônicos de 172 instituições de saúde, extraindo dois grupos comparáveis: um que iniciou tratamento com tirzepatida e outro que recebeu medicamentos tradicionais para perda de peso. Os fármacos de referência incluíram fentermina, orlistate, topiramato, naltrexona e bupropiona, todos amplamente prescritos há décadas.
Para garantir a comparabilidade, foi realizado um pareamento estatístico que criou pares de pacientes semelhantes em idade, sexo, comorbidades e medicações em uso. Cada grupo ficou com 24.103 indivíduos, sendo três quartos mulheres, idade média de 50 anos e índice de massa corporal (IMC) próximo de 40 kg/m².
Foram excluídos do estudo pacientes com pensamentos suicidas, tentativas de suicídio, internações ou atendimentos de urgência nos seis meses anteriores, a fim de evitar viés de gravidade aguda.
Principais resultados: redução de ideação suicida e outros desfechos
Em um acompanhamento de seis meses, a ideação suicida foi registrada em 37 usuários de tirzepatida (0,15 %) contra 71 pacientes do grupo comparador (0,29 %). Em termos relativos, o risco foi 37 % menor para quem recebeu a tirzepatida.
Quando transformado em números absolutos, isso corresponde a aproximadamente 15 casos por 10 mil pacientes tratados com tirzepatida, contra 29 casos por 10 mil no grupo tradicional – uma diferença de um caso a menos a cada 700 pacientes.
Outros desfechos também apresentaram vantagem significativa para a tirzepatida:
- Ansiedade: 26,5 % vs 35 % (redução de 17 %).
- Insônia: 6,8 % vs 8,6 %.
- Idas ao pronto‑socorro ou internações: 8,9 % vs 11,3 %.
- Mortalidade por qualquer causa: 0,12 % vs 0,38 % (redução de 62 %).
Essas diferenças permaneceram consistentes nas análises de um e dois anos de acompanhamento, reforçando a robustez dos achados ao longo do tempo.
Limitações do estudo e implicações clínicas
Embora os resultados sejam encorajadores, trata‑se de um estudo observacional, que demonstra associação e não causa direta. Os autores alertam que a redução de mortalidade de 62 % em apenas seis meses é improvável de ser explicada exclusivamente pelo efeito farmacológico.
Uma meta‑análise prévia com mais de 71 mil participantes mostrou apenas 12 % de redução de mortalidade para a classe de medicamentos GLP‑1/GIP, indicando que fatores externos – como maior acesso a cuidados médicos, acompanhamento mais próximo e melhor adesão ao tratamento – podem estar influenciando os resultados.
Além disso, a diferença média de perda de peso entre os grupos foi modesta, pouco mais de meio ponto no IMC, sugerindo que o emagrecimento por si só não explica a queda nos eventos psiquiátricos.
Outro ponto crítico é a exclusão de pacientes em crise recente. Os achados não se aplicam a indivíduos com depressão grave, ideação suicida ativa ou histórico recente de tentativas, limitando a generalização para os casos mais vulneráveis.
O estudo chega em um momento de mudança regulatória. Em janeiro de 2026, o FDA retirou o alerta de risco de suicídio das bulas de Wegovy, Saxenda e Zepbound, após revisão que não encontrou aumento significativo de risco. Em 2025, outra análise associou a tirzepatida a 48 % menor risco de ideação ou tentativa de suicídio em mais de 16 mil pares de pacientes com obesidade.
Portanto, a nova evidência amplia o espectro de pacientes que podem se beneficiar da tirzepatida, incluindo aqueles com comorbidades psiquiátricas moderadas, mas ainda exige ensaios controlados randomizados para confirmar o efeito antissuicida e definir protocolos de segurança.
Em síntese, a tirzepatida demonstra potencial para melhorar desfechos de saúde mental em população obesas com depressão, ao mesmo tempo em que destaca a necessidade de monitoramento cuidadoso e de estratégias integradas que considerem fatores socioeconômicos, acesso ao tratamento e gravidade da doença mental.








