Um relatório especial da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) divulgado nesta segunda‑feira, 21 de julho de 2024, alerta que um episódio extremo de El Niño pode reduzir em pelo menos 2% o Produto Interno Bruto (PIB) da região nos próximos três anos e acrescentar até 4,8 milhões de pessoas à pobreza até o final da década. O documento, elaborado em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU), analisa os impactos econômicos, sociais e ambientais de um chamado “Super El Niño”.
Os números apresentados são projeções baseadas em cenários de alta intensidade climática, mas a Cepal enfatiza que eles representam possibilidades, não certezas, e que políticas de mitigação podem reduzir os efeitos negativos.
Impactos econômicos estimados
Segundo a Cepal, a perda econômica total poderia alcançar 2% do PIB regional, equivalente a centenas de bilhões de dólares, se o fenômeno atingir intensidade muito forte. Metade dessa perda já seria sentida no primeiro ano de ocorrência, quando a redução da produção agrícola, a queda na geração de energia e a interrupção das cadeias de suprimentos se combinariam.
Além do abalo ao crescimento, o relatório indica que a renda das famílias seria pressionada, aumentando a taxa de pobreza em comparação com um cenário sem El Niño. A estimativa de 4,8 milhões de pessoas adicionais em situação de vulnerabilidade corresponde a um aumento de cerca de 0,8% da população total da América Latina e do Caribe.
Essas projeções, embora alarmantes, são calculadas para um cenário extremo. A Cepal ressalta que a efetividade de medidas de adaptação e de políticas públicas pode atenuar os impactos, evitando que todos os números previstos se materializem.
Características do fenômeno e probabilidades
El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico Equatorial, o que altera a circulação atmosférica global e desencadeia mudanças no padrão de chuvas e temperaturas em todo o planeta.
Modelos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) apontam mais de 90% de chance de que o próximo evento alcance intensidade “muito forte” durante o outono e inverno do Hemisfério Norte de 2026‑2027, período que corresponde à primavera e verão no Brasil.
O mesmo estudo da NOAA indica 69% de probabilidade de que o fenômeno atinja a magnitude histórica classificada como “Super El Niño”, com anomalias de temperatura da superfície do mar na zona Niño 3.4 superiores a 2,5 °C, podendo chegar a 3 °C.
Essas condições extremas intensificam o risco de secas prolongadas, eventos de calor intenso e diminuição das precipitações, fatores que alimentam os impactos econômicos descritos nos capítulos seguintes.
Setores mais vulneráveis
O setor elétrico aparece como um dos principais pontos de vulnerabilidade, sobretudo nos países que dependem fortemente da geração hidrelétrica. Em algumas nações, como Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia, mais de 70% da matriz elétrica provém de reservatórios.
Com a redução das chuvas e o aumento das temperaturas, os reservatórios podem ficar abaixo dos níveis críticos exatamente quando a demanda por energia para refrigeração e ar‑condicionado dispara. A Cepal estima que, entre outubro e dezembro de 2026, a probabilidade de déficit de precipitação atinja 60% em áreas estratégicas, colocando 31,1% do território regional em alerta alto.
Grandes centros urbanos – São Paulo, Lima, Cidade do México – podem enfrentar racionamento de energia ou aumento significativo nas tarifas, afetando tanto residências quanto indústrias.
A agricultura também está entre os setores mais expostos. A análise da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indica mais de 70% de chance de secas que comprometam a produção nos corredores secos da América Central, bem como nas regiões agrícolas da Colômbia, Venezuela, Cuba, República Dominicana e Haiti.
- Redução de colheitas de milho, soja e café
- Diminuição da disponibilidade de forragem para pecuária
- Perda de renda para pequenos produtores rurais
Essas perdas podem gerar escassez de alimentos básicos, pressionar os preços internos e elevar a inflação, ampliando ainda mais a vulnerabilidade das famílias de baixa renda.
O setor pesqueiro não está imune. O aquecimento das águas superficiais reduz a subida de correntes frias ricas em nutrientes, comprometendo a cadeia alimentar marinha. Espécies como anchoveta, sardinha e merluza podem migrar para águas mais frias ou apresentar queda abrupta de captura.
- Diminuição da produção de farinha de peixe, importante insumo para a aquicultura
- Impacto nas comunidades costeiras dependentes da pesca artesanal
- Redução de exportações de pescado, afetando a balança comercial de países como Peru e Equador
Recomendações e estratégias de adaptação
A Cepal sugere que governos adotem planos de contingência que incluam diversificação da matriz energética, com investimentos em energia solar e eólica para reduzir a dependência hídrica. A criação de reservas estratégicas de água e a modernização dos sistemas de transmissão também são apontadas como medidas prioritárias.
No campo, recomenda‑se a adoção de tecnologias de irrigação mais eficientes, o plantio de variedades de cultivos resistentes à seca e a promoção de seguros agrícolas que amortizem perdas de produção.
Para a pesca, políticas de manejo adaptativo, como a definição de cotas temporárias e a promoção de aquicultura em sistemas de recirculação, podem ajudar a manter a oferta de proteína animal mesmo diante da escassez de recursos marinhos.
Por fim, a cooperação regional é vista como essencial. A troca de dados climáticos em tempo real, a harmonização de políticas de resposta a emergências e o apoio técnico entre países podem melhorar a capacidade de reação coletiva frente a um Super El Niño.








