Na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu oficialmente uma investigação e exonerou um servidor da área de tecnologia suspeito de repassar minutas de decisões judiciais a um advogado próximo ao senador Flávio Bolsonaro (PL). O fato ocorreu nas dependências do tribunal, em Brasília, e foi divulgado pelos principais veículos de comunicação do país.
Contexto da denúncia e primeiros indícios
O relatório da Polícia Federal (PF) encaminhado à Procuradoria‑Geral da República (PGR) trouxe à tona trocas de mensagens entre o servidor Humberto Fontoura Pradera e o advogado Willer Tomaz. Em uma das conversas, Pradera informou que duas pessoas haviam sido designadas para tratar de um assunto interno do STJ e que manteria Tomaz atualizado.
Em outra mensagem, o servidor enviou uma fotografia de um documento exibido na tela de um computador, com um carimbo sobre a mesa, demonstrando a prática de compartilhamento de documentos internos com terceiros.
Procedimentos internos e exoneração
Ao tomar conhecimento dos fatos, o presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, acionou imediatamente um procedimento interno de apuração que já estava em curso desde a semana anterior. Como Pradera ocupava um cargo de confiança, e não era concursado, a decisão de exoneração foi tomada rapidamente.
O tribunal divulgou que as medidas criminais já estão em andamento, mas que permanecem sigilosas, e que não comentará mais sobre o caso.
Perfil do servidor e suas atribuições
Humberto Fontoura Pradera exercia a função de secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação (STI) no STJ, cargo de destaque que o colocava à frente de projetos de transformação digital e de inteligência artificial no órgão. Antes disso, ele havia sido assessor‑chefe da Assessoria de Inteligência Artificial, contribuindo para a modernização dos sistemas internos.
Além das mensagens citadas, o relatório da PF mostrou que Pradera respondeu a perguntas de Tomaz sobre processos específicos, citando o número do recurso especial REsp 2122969 e explicando que a tutela havia perdido efeito após o julgamento.
Conexões com outros atores do poder judiciário
O advogado Willer Tomaz também mantinha contato com o então subprocurador‑geral da República, Antônio Carlos Simões Martins Soares, que se aposentou voluntariamente em março de 2026. O relatório da PF inclui uma planilha comparativa que demonstra que trechos de pareceres elaborados por Soares eram idênticos ou muito semelhantes às recomendações enviadas por Tomaz.
Em um dos casos analisados, o conteúdo de uma mensagem de Tomaz foi reproduzido quase literalmente em um parecer que tratava de um agravo em recurso especial, abordando temas como desconto de quase 90%, valor do FII Eldorado, exclusão de créditos ruins, laudos sigilosos e atuação do administrador judicial.
Outro exemplo mostrou que uma discussão prévia sobre tese de gestão de conta de espólio acabou influenciando a opinião de Soares, que acabou pelo provimento da medida.
Investigações paralelas envolvendo Willer Tomaz
Willer Tomaz, além de ser apontado como intermediário nas trocas de informações do STJ, é alvo de outras investigações da PF. Ele é um dos proprietários do jato que transportou o senador Flávio Bolsonaro em janeiro de 2025 e está envolvido na Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS.
Em outra apuração, a PF investiga suposta lavagem de dinheiro por meio de apostas em casas de jogos. Dados revelados pela defesa de Tomaz mostram que, entre janeiro de 2025 e julho de 2026, ele apostou R$ 6,6 bilhões, acumulando um prejuízo de R$ 188,5 milhões.
- Operação Sem Desconto: investiga fraudes no INSS.
- Lavagem de dinheiro: apostas em casa Blaze, com perdas significativas.
O caso da Blaze ganhou ainda mais repercussão ao ser associado ao atacante Neymar Jr, patrocinado pela casa de apostas, e à influenciadora digital Virgínia Fonseca, que também tem contrato com a empresa.
Repercussão política e jurídica
O vazamento de minutas de decisões judiciais a um advogado ligado a um candidato à Presidência levanta sérias questões sobre a independência do Poder Judiciário e a integridade dos processos decisórios. A exposição de documentos internos pode influenciar a estratégia de defesa de partes interessadas e comprometer a imparcialidade das decisões.
Especialistas em direito constitucional alertam que a prática pode configurar crime de violação de sigilo funcional, previsto no Código Penal, além de violar normas internas do STJ sobre o tratamento de informações confidenciais.
O caso também alimenta o debate sobre a necessidade de reforçar mecanismos de controle interno nos tribunais superiores, especialmente no que diz respeito ao acesso a sistemas de TI por servidores em cargos de confiança.
Enquanto as investigações seguem, o STJ reforçou seu compromisso com a transparência e a segurança da informação, anunciando revisão de protocolos de acesso e treinamento reforçado para todos os servidores que lidam com dados sensíveis.








