A cantora Selena Gomez revelou recentemente que foi dependente de cigarros eletrônicos e que a nicotina presente nesses dispositivos alterou drasticamente sua voz. A declaração foi feita em um vídeo publicado nas redes sociais da artista na última semana. O relato desperta preocupação sobre os riscos do vape nos Estados Unidos, onde a artista reside.
Os perigos da nicotina nos cigarros eletrônicos
A nicotina é reconhecida pela Organização Pan‑Americana da Saúde como substância altamente viciante, sem nível seguro de consumo. Nos vapes, ela costuma aparecer na forma de sal de nicotina, permitindo que o organismo absorva concentrações até vinte vezes superiores às dos cigarros convencionais.
Além da dependência, a nicotina provoca efeitos cardiovasculares, eleva a pressão arterial e pode interferir no desenvolvimento cerebral de adolescentes. Estudos recentes apontam que usuários de vape podem ter níveis de nicotina no sangue seis vezes maiores que fumantes de cigarro tradicional.
O dispositivo de vape contém mais de dois mil compostos químicos, entre eles substâncias tóxicas e potencialmente cancerígenas. A seguir, alguns dos componentes mais preocupantes:
- Formaldeído – agente cancerígeno conhecido.
- Acetaldeído – irritante respiratório.
- Acroleína – causa inflamação pulmonar.
- Acetona – pode irritar mucosas.
- Propilenoglicol e glicerol – geram partículas ultrafinas ao serem aquecidos.
Esses elementos são liberados em forma de aerossol a temperaturas próximas a 250 °C, criando partículas que penetram profundamente nas vias aéreas.
Como o vape afeta a voz e as vias respiratórias
As cordas vocais são duas delicadas pregas localizadas na laringe, responsáveis por produzir o som da fala e do canto. Qualquer inflamação ou irritação nessa região altera a vibração das pregas, modificando timbre, volume e qualidade da voz.
Ao inalar o vapor, o aerossol passa diretamente pela laringe a cada tragada. Substâncias como o propilenoglicol, quando aquecidas, transformam‑se em partículas ultrafinas que podem provocar edema e inflamação local.
Usuários intensivos de vape chegam a realizar entre mil e três mil inalações diárias, número muito superior às 200 tragadas médias de um fumante de cigarro tradicional por maço. Essa frequência eleva o risco de lesões crônicas nas vias respiratórias.
Vários casos de inflamação da laringe, perda temporária da voz e até danos permanentes têm sido relatados por médicos. No Brasil, cantores como Solange Almeida e influenciadoras como Vanessa Lopes já compartilharam experiências de rouquidão e risco de ficar sem voz devido ao uso frequente de vape.
Selena Gomez descreveu que a mudança em sua voz foi tão perceptível que chegou a brincar: “Se vocês não gostam da minha voz, é totalmente compreensível”. Seu testemunho evidencia como a nicotina pode interferir diretamente na performance vocal de artistas.
O que dizem os especialistas e as políticas de controle
Pesquisadores do Instituto do Coração (Incor), em parceria com a Vigilância Sanitária e o Laboratório de Toxicologia da USP, analisaram mais de 400 usuários de cigarros eletrônicos. Os resultados mostraram níveis de nicotina seis vezes superiores aos de fumantes de cigarro comum e um início de dependência em apenas três a seis meses de uso.
Um estudo observou que cerca de 70 % dos participantes tinham entre 18 e 25 anos e nunca haviam fumado antes de experimentar o vape, indicando que o dispositivo funciona como porta de entrada para a nicotina.
Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) passou a regular também os vapes aromatizados, embora a disponibilidade ainda seja ampla. No Brasil, a Anvisa proibiu a comercialização desses dispositivos desde 2009, mas o mercado clandestino continua ativo.
A principal dificuldade de controle está na falta de transparência sobre a composição dos líquidos. Muitos produtos são fabricados sem rotulagem adequada, impedindo que consumidores saibam a quantidade exata de nicotina e de substâncias tóxicas presentes.
Especialistas recomendam medidas preventivas para quem já utiliza vape ou pensa em iniciar:
- Reduzir a frequência de inalações e limitar o tempo de uso diário.
- Preferir líquidos com menor concentração de nicotina ou optar por versões sem nicotina.
- Buscar orientação médica ao perceber alterações na voz, tosse persistente ou desconforto na garganta.
- Considerar terapias de cessação de nicotina, como adesivos ou gomas, quando houver dificuldade de abandono.
Além disso, campanhas de conscientização nas escolas e nas redes sociais são essenciais para alertar jovens sobre os riscos de dependência precoce.
O relato de Selena Gomez serve como um alerta público, mostrando que mesmo celebridades não estão imunes aos efeitos nocivos do vape. A voz, ferramenta central de sua carreira, foi diretamente comprometida, reforçando a necessidade de discussões mais amplas sobre regulamentação e educação sanitária.
Em resumo, o vape não é um produto inofensivo. A combinação de alta concentração de nicotina, substâncias químicas tóxicas e uso intensivo cria um cenário propício para inflamações, alterações vocais e dependência rápida. Consumidores informados e políticas rígidas são fundamentais para reduzir esses riscos.








