Regininha, cantora e compositora carioca, faleceu no dia 13 de outubro de 2026, aos 81 anos, no Rio de Janeiro. Sua morte encerra uma trajetória marcada por colaborações com grandes nomes da música brasileira, incluindo Roberto Carlos.
A trajetória artística de Regininha
Regininha, nome artístico de Regina Amália Serra de Souza, nasceu em 1º de outubro de 1945, em uma família de classe média que incentivava a prática musical. Desde cedo, mostrou talento para o canto e a composição, participando de corais escolares e festivais de música regional.
No final de 1966, ingressou no coletivo Musicanossa, um movimento que buscava revitalizar a bossa nova em um cenário dominado por novos estilos. Lá, aprendeu a importância da experimentação e do trabalho em equipe, valores que carregaria por toda a carreira.
Em 1969, Regininha gravou seu único álbum solo, Me ajuda que a voz não dá!!, com o apoio da Turma da Pilantragem. O título do disco surgiu de um pedido de socorro que fez enquanto gravava a canção “Primavera”, de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, pedindo ajuda para alcançar as notas mais agudas.
O álbum contou com interpretações de clássicos como “Tem dó” (Baden Powell e Vinicius de Moraes) e “Deixa a nega gingar” (Luiz Cláudio de Castro). Cada faixa revelava a versatilidade da artista, que transitava entre o samba, a bossa nova e o swing com naturalidade.
Colaborações marcantes e o sucesso de “Teletema”
O ponto alto da carreira de Regininha chegou em 1969, quando gravou “Teletema”, parceria de Antonio Adolfo com Tibério Gaspar. A canção foi escolhida como tema principal da novela Véu de noiva, exibida pela TV Globo entre outubro de 1969 e junho de 1970, e rapidamente se tornou um clássico da trilha sonora televisiva.
“Teletema” consolidou Regininha como uma voz reconhecida nacionalmente, apesar de sua discografia limitada. A melodia, combinada com a interpretação delicada da cantora, ficou gravada na memória de uma geração que acompanhava a novela diariamente.
Em outubro de 1981, Roberto Carlos gravou “Simples mágica”, composição de Regininha, Jamil Joanes e Ronaldo Monteiro. Embora a música já tivesse sido lançada em EP por Regininha em 1979, a versão de Roberto Carlos trouxe nova visibilidade à compositora.
O álbum de Roberto Carlos, lançado em 26 de novembro de 1981, incluía a faixa “Simples mágica” entre outras canções que se tornaram sucessos nas rádios brasileiras. Essa parceria demonstrou a relevância de Regininha no meio musical, mesmo quando sua própria obra não alcançava as mesmas vendas.
O trio Umas & Outras e a fase dos jingles
Em 1970, Regininha fundou o trio vocal Umas & Outras ao lado de Dorinha Tapajós e Malu Balona, ambas também integrantes da Turma da Pilantragem. O grupo lançou o álbum Poucas e boas, produzido por Nelson Motta, que reuniu composições de Antonio Adolfo, Ivan Lins, Joyce Moreno, Marcos Valle e Nelson Angelo.
O projeto trouxe novas oportunidades de performance ao vivo, com shows em casas de show de São Paulo e Rio de Janeiro. Cada integrante do trio contribuía com arranjos vocais complexos, destacando a capacidade de harmonização que se tornou marca registrada de Regininha.
Após a dissolução do trio em 1971, a artista focou sua carreira como vocalista de estúdio, gravando jingles para marcas como Coca‑Cola, Nestlé e Banco do Brasil. Seu timbre suave e a capacidade de adaptar a mensagem publicitária fizeram dela uma das vozes mais solicitadas nas agências de publicidade da época.
Mesmo nessa fase, Regininha nunca abandonou a composição. Continuou a escrever letras que abordavam temas sociais, amorosos e cotidianos, muitas vezes colaborando com jovens compositores que buscavam orientação.
Legado, reconhecimento póstumo e últimas homenagens
Embora tenha deixado um catálogo discográfico enxuto, Regininha permanece viva na memória cultural graças a “Teletema” e à sua participação em projetos de grande visibilidade. Seu nome ainda aparece em listas de referência da MPB, e seu álbum de 1969 é objeto de colecionadores.
Em 2024, o Instituto da Música Brasileira organizou uma exposição itinerante que destacou a carreira de Regininha, apresentando gravações inéditas, manuscritos de letras e objetos pessoais. A mostra recebeu elogios da crítica especializada e reforçou a importância da artista na história da música popular.
Após seu falecimento, músicos como Caetano Veloso, Maria Bethânia e o próprio Roberto Carlos prestaram homenagens públicas, destacando a sensibilidade e a ética de trabalho de Regininha. Em redes sociais, milhares de fãs compartilharam vídeos de performances ao vivo, celebrando a voz que marcou uma época.
Para preservar seu legado, a família anunciou a criação de um arquivo digital que reunirá todas as gravações, partituras e entrevistas concedidas ao longo da vida da artista. O projeto, que será hospedado em parceria com a Fundação Biblioteca Nacional, permitirá que pesquisadores e admiradores acessem o material gratuitamente.
Além disso, o selo independente Som da Lira planeja relançar Me ajuda que a voz não dá!! em edição especial, com remasterização em alta fidelidade e notas de rodapé explicativas sobre cada faixa. A edição contará ainda com um livreto que narra a história da Turma da Pilantragem e o contexto sociocultural do Brasil dos anos 60.
Regininha deixa também um legado de inspiração para novas gerações de cantoras que buscam combinar técnica vocal refinada com autenticidade emocional. Seu percurso demonstra que, mesmo sem grandes gravadoras, é possível alcançar relevância através da arte colaborativa e da dedicação ao ofício.
Em síntese, a vida de Regininha exemplifica a força da música como ferramenta de memória coletiva. Seu falecimento aos 81 anos marca o fim de um capítulo, mas sua voz continua a ecoar nas rádios, nas novelas e nos corações daqueles que cresceram ao som de “Teletema”.








