A queda inesperada de um amendoim-do-campo, árvore nativa que adornava o pátio da Escola Classe Kanegae, no Distrito Federal, desencadeou a criação de um projeto inovador que une ciência, tecnologia e arte. O incidente ocorreu no início de 2023 e rapidamente se converteu em oportunidade pedagógica para alunos do Ensino Fundamental.
Do luto à criatividade: o nascimento do projeto
Com quase três décadas de experiência em sala de aula, a professora Ana Lucia Oliveira de Carvalho viu na perda da planta um convite para repensar a prática docente. Em vez de lamentar a ausência da árvore, ela propôs que os estudantes investigassem o bioma do Cerrado, utilizassem ferramentas digitais e criassem narrativas visuais.
O primeiro passo foi organizar os alunos em grupos pequenos, estimulando a curiosidade sobre a flora local. Cada equipe recebeu a missão de pesquisar as características do amendoim-do-campo, seu papel ecológico e as ameaças que enfrenta. Essa abordagem colaborativa permitiu que os jovens desenvolvessem habilidades de pesquisa, comunicação e pensamento crítico.
Metodologia STEAM em ação
O projeto foi estruturado em cinco etapas, alinhadas ao modelo STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática). A seguir, a sequência de atividades:
- Levantamento de dados: coleta de informações sobre o Cerrado por meio de fontes digitais e entrevistas com especialistas.
- Programação: desenvolvimento de pequenos aplicativos que simulam o ciclo de vida da árvore e seu impacto ambiental.
- Produção de vídeo: criação de curtas-metragens em que os alunos apresentam super‑heróis inspirados nas espécies do bioma.
- Design de mudas: planejamento de um viveiro escolar para replantar amendoins‑do‑campo e outras espécies nativas.
- Divulgação: apresentação dos resultados para a comunidade escolar e publicação em redes sociais.
Ao integrar disciplinas distintas, o projeto promoveu a aprendizagem significativa, permitindo que os estudantes conectassem teoria e prática. A programação, por exemplo, foi utilizada para modelar o crescimento das mudas, enquanto a arte visual deu vida aos personagens que defendem a natureza.
Reconhecimento nacional e impactos duradouros
O trabalho desenvolvido na Escola Classe Kanegae chamou a atenção do mapeamento nacional realizado pelo Itaú Social e pelo Instituto Catalisador. Essa iniciativa destaca práticas educacionais baseadas na abordagem STEAM e reconheceu o projeto como exemplo de inovação pedagógica.
Patricia Mota Guedes, superintendente do Itaú Social, ressaltou a importância de valorizar perguntas dos estudantes: “Quando uma criança percebe que sua pergunta tem valor, que é capaz de investigar um problema e que sua ação pode produzir mudanças, ela também passa a confiar mais no próprio potencial para compreender e transformar a realidade”.
Além do reconhecimento institucional, o projeto gerou efeitos concretos na comunidade escolar. Até o momento, foram plantadas 45 mudas de amendoim‑do‑campo no pátio da escola, e os vídeos produzidos pelos alunos já alcançaram mais de 10 mil visualizações nas redes sociais da instituição.
Os professores que participaram do levantamento nacional relataram que a experiência fortaleceu a confiança em adotar metodologias interdisciplinares. Dos 240 relatos coletados, 121 foram direcionados aos Anos Finais do Ensino Fundamental, evidenciando a relevância da proposta para essa faixa etária.
Em entrevista, Ana Lucia enfatizou que a chave do sucesso foi a capacidade de observar o cotidiano e transformar situações aparentemente triviais em oportunidades de aprendizagem. “Não preciso esperar uma situação perfeita para ensinar. Preciso olhar para o que acontece, ouvir as crianças e perceber que, muitas vezes, uma situação do cotidiano já traz uma oportunidade de aprendizagem”, afirmou.
O projeto “O Chamado do Cerrado” continua em fase de expansão, com planos de replicar a iniciativa em outras escolas do DF e de criar um kit pedagógico digital que facilite a adoção da metodologia STEAM por educadores de todo o país.








