Arqueólogos desenterraram objetos pessoais de quase dois milênios em um armário de madeira encontrado em uma casa da Via dell’Abbondanza, em Pompeia, cidade que foi soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. A descoberta ocorreu durante as escavações de 2024, que visam aprofundar o conhecimento sobre os moradores que desapareceram na catástrofe. Os achados oferecem um retrato vívido da rotina, das crenças e das desigualdades sociais da época.
Descobertas no armário milenar
O armário, fechado por quase dois mil anos, continha uma variedade de objetos que apontam para diferentes atividades domésticas e comerciais. Entre os itens recuperados estavam utensílios de beleza, um frasco de perfume, moedas e um colar infantil com mais de vinte pingentes.
Os arqueólogos catalogaram os achados em duas categorias principais: itens de uso cotidiano e objetos que sugerem atividade mercantil. A seguir, a lista dos objetos de uso cotidiano:
- Pinças de bronze para depilação
- Queimador de incenso de cerâmica
- Lanterna de bronze
- 38 moedas de bronze e prata
- Panelas de barro
- Caixa de madeira com pesos de chumbo
Os pesos de chumbo indicam que alguém da residência possivelmente lidava com pesagem de mercadorias, reforçando a hipótese de que o morador exercia alguma atividade comercial.
O colar infantil e seu significado cultural
O objeto que mais despertou a curiosidade dos pesquisadores foi um colar conhecido como crepundia. Tradicionalmente usado por crianças na Roma Antiga, o colar continha mais de vinte pingentes feitos de materiais diversos, como âmbar, vidro e metal.
Os pingentes representavam divindades e símbolos protetores, entre eles Bes, deus egípcio da proteção infantil, e Mercúrio, mensageiro dos deuses. Cada pingente produzia um som suave quando o colar era movimentado, permitindo que os pais localizassem seus filhos em ambientes agitados.
Para ilustrar a diversidade dos pingentes, segue a lista dos principais símbolos encontrados:
- Bes – figura de proteção infantil
- Mercúrio – símbolo de comunicação e viagem
- Ámbar – considerado amuleto de energia
- Vidro colorido – associado à fertilidade
- Pequenas ânforas – representando abundância
O diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, Gabriel Zuchtriegel, explicou que o colar também pode refletir a mobilidade das famílias romanas, que frequentemente se deslocavam entre diferentes regiões do Mediterrâneo, levando consigo objetos de valor sentimental.
O contexto social e arqueológico de Pompeia
As escavações na residência da Via dell’Abbondanza fazem parte de um projeto de restauração que começou em 1912, quando a fachada do imóvel foi desenterrada pela primeira vez. Agora, os arqueólogos estão explorando cômodos ainda pouco investigados, revelando detalhes que antes permaneciam ocultos.
Em uma das áreas de armazenamento, foram encontrados fragmentos de esqueletos de dois ratos dentro de uma ânfora, indicando a presença de alimentos armazenados que atraíram roedores. Inscrições antigas associam o imóvel a um cidadão chamado Cornelius Maximus, embora essas marcas estejam desgastadas e difíceis de ler.
Além desse sítio, as escavações avançam na Villa dos Mistérios, onde a equipe decidiu focar nos alojamentos dos empregados em vez dos luxuosos afrescos dos proprietários. Essa mudança de foco visa reconstruir a rotina e as condições de vida dos trabalhadores, a maioria dos quais eram escravizados.
Descobertas recentes em outras áreas de Pompeia reforçam a imagem de uma sociedade marcada por profundas desigualdades. Em 2025, uma residência no distrito de Regio IX revelou um complexo de banhos termais que servia para receber convidados de alta classe. Já em 2023, arqueólogos encontraram uma padaria estreita no mesmo distrito, onde acredita‑se que escravizados eram mantidos em confinamento para produzir pão.
Esses achados demonstram como os espaços de luxo conviveram lado a lado com áreas de produção forçada, criando um panorama complexo da vida urbana na antiga cidade romana. Cada objeto recuperado, desde o perfume até o colar infantil, funciona como uma peça de um quebra‑cabeça que permite entender melhor as relações de poder, as crenças religiosas e as estratégias de sobrevivência dos habitantes.
Ao analisar o conjunto de artefatos, os especialistas ressaltam a importância de considerar tanto os objetos de luxo quanto os itens cotidianos para obter uma visão equilibrada da sociedade pompeiana. O armário de madeira, ao ser aberto, revelou não apenas objetos, mas também histórias de pressa, medo e esperança que marcaram o último dia antes da catástrofe vulcânica.
Em síntese, a descoberta desses artefatos oferece uma oportunidade única para revisitar a vida dos pompeianos sob uma nova luz, destacando a riqueza cultural, as práticas comerciais e as disparidades sociais que caracterizavam a cidade antes de ser engolida pelo Vesúvio.








