Em uma operação realizada nesta quinta‑feira (10), a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão para investigar supostos desvios de recursos públicos ligados a um projeto educacional financiado com emenda parlamentar de Mário Frias. O caso, que envolve também a produtora do filme “Dark Horse”, dedicado ao ex‑presidente Jair Bolsonaro, ganhou destaque nas notícias nacionais.
Origem dos recursos e estrutura do projeto
O Instituto Conhecer Brasil (ICB) recebeu R$ 1 milhão de emenda parlamentar do deputado federal Mário Frias para implementar o programa “Jovem Empreendedor 4.0”. O objetivo declarado era capacitar 250 multiplicadores e atender 2.250 estudantes do 4.º e 5.º anos da rede pública.
Para produzir o kit pedagógico, o ICB contratou o Instituto Super Poder Educacional – também conhecido como Super Leitores – por R$ 300 mil, valor que deveria cobrir a criação, produção e gravação de 24 videoaulas.
- Valor total da emenda: R$ 1.000.000
- Contrato com Super Poder: R$ 300.000
- Meta de alunos: 2.250
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), parceiro oficial do projeto, rejeitou a prestação de contas ao identificar atrasos e descumprimento de metas.
Irregularidades encontradas na execução
A auditoria da Controladoria‑Geral da União (CGU) constatou que as videoaulas foram disponibilizadas apenas após o término do convênio, registrando número muito baixo de acessos. O pagamento de R$ 300 mil ao Super Poder, portanto, não correspondeu ao volume de conteúdo efetivamente entregue.
Além disso, a investigação revelou que a Go Up Entertainment Ltda., empresa de Karina Ferreira da Gama – presidente do ICB e sócia da produtora do filme “Dark Horse” – recebeu recursos que podem ter sido desviados do mesmo fundo de emenda.
Os documentos obtidos apontam que a Go Up movimentou cerca de R$ 19 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, segundo relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Conexão com o filme “Dark Horse”
Durante as gravações de “Dark Horse” em São Paulo, entre outubro e dezembro de 2025, a produtora recebeu R$ 750 mil da NTT Brasil, valor próximo ao repasse de R$ 700 mil feito pelo ICB a duas empresas contratadas – Dinâmica Editora e Super Poder Educacional.
Essa coincidência levantou suspeitas de que recursos federais destinados ao programa educacional teriam sido canalizados para a produção cinematográfica, configurando possível uso irregular de emendas parlamentares.
O Supremo Tribunal Federal (STF) supervisiona a investigação, que busca esclarecer se houve crime de peculato, lavagem de dinheiro ou improbidade administrativa.
Repercussões políticas e judiciais
O deputado Mário Frias ainda não se pronunciou oficialmente sobre as acusações, mas a denúncia pode gerar consequências parlamentares, inclusive a abertura de processo de cassação.
O Ministério Público Federal (MPF) já sinalizou interesse em apresentar denúncia contra os envolvidos, caso as investigações confirmem a prática de crimes contra a administração pública.
Enquanto isso, o Ministério da Educação (MEC) está revisando os critérios de aprovação de projetos que utilizam emendas parlamentares, visando evitar novos casos semelhantes.
Impacto na educação e na sociedade
O fracasso do programa “Jovem Empreendedor 4.0” deixa milhares de estudantes sem acesso ao material prometido, comprometendo iniciativas de inclusão digital e capacitação empreendedora nas escolas públicas.
Especialistas em educação apontam que a falta de transparência na aplicação de recursos públicos pode gerar descrédito nas políticas públicas e desestimular parcerias entre governo e iniciativa privada.
Organizações da sociedade civil têm pedido maior controle social e auditoria independente de projetos que utilizam recursos de emendas parlamentares.
Em entrevista, um representante da Go Up Entertainment afirmou que os recursos recebidos foram destinados integralmente à produção do filme, mas não descartou a necessidade de prestar esclarecimentos detalhados às autoridades.
O caso ainda está em fase de coleta de provas, e a Polícia Federal deve ampliar a investigação para outras empresas e indivíduos que possam ter participado da suposta cadeia de desvios.
Até o momento, não há condenação definitiva, mas o processo judicial já mobiliza diversos órgãos de controle, como a CGU, o TCU e o Ministério da Transparência.
O desdobramento do caso pode influenciar futuras discussões sobre a reforma das emendas parlamentares, tema que tem sido pauta constante no Congresso Nacional.
Analistas políticos destacam que a transparência na destinação de recursos é essencial para garantir a credibilidade das políticas públicas e evitar o uso indevido de verbas destinadas à população.
Com a divulgação dos resultados da investigação, espera‑se que haja um reforço nas normas de compliance e na exigência de prestação de contas por parte de organizações que recebem recursos públicos.
O acompanhamento da sociedade civil, por meio de audiências públicas e relatórios de ONGs, será fundamental para garantir que os recursos sejam efetivamente aplicados em benefício dos estudantes.








