O líder do Partido Liberal (PL) na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, revelou que o senador Flávio Bolsonaro pretende insistir na aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das horas trabalhadas mesmo depois da eleição presidencial. A declaração foi feita nesta quarta‑feira, 14 de julho, durante entrevista na sede da Câmara, no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo o parlamentar, é garantir que o tema seja debatido no período pós‑eleitoral.
Contexto político da proposta
Desde o início do ano, a discussão sobre a reforma da jornada de trabalho tem ocupado o centro do debate legislativo. A proposta de fim da escala 6×1, que permite que trabalhadores tenham um dia de descanso a cada seis dias, foi aprovada recentemente no Senado, gerando reações divergentes entre os partidos. Enquanto o governo federal e parte da oposição apoiaram a medida, setores conservadores e empresariais têm manifestado resistência.
Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e candidato à Presidência, tem sido um crítico vocal da mudança. Em entrevista anterior, ele afirmou que a flexibilização da jornada seria benéfica para a competitividade do país. Contudo, no dia 13 de julho, o próprio candidato declarou que votaria a favor do fim da 6×1 para atender à “vontade da maioria do povo”.
Essa postura ambígua alimenta a percepção de que a estratégia do PL é usar a popularidade da proposta para ganhar apoio, ao mesmo tempo em que prepara terreno para a PEC das horas trabalhadas, que representa uma mudança mais profunda no modelo de contratação.
Detalhes da PEC das horas trabalhadas
A PEC foi redigida por Rogério Marinho, coordenador de campanha de Flávio Bolsonaro, e propõe a criação de um regime alternativo à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Nesse novo modelo, empregadores e trabalhadores negociariam diretamente o valor da remuneração por hora efetivamente trabalhada, sem a obrigatoriedade de um salário mínimo ou de um número mínimo de horas semanais.
Entre os principais pontos da proposta, destacam‑se:
- Flexibilidade total na definição da carga horária semanal;
- Remuneração baseada exclusivamente nas horas efetivamente prestadas;
- Possibilidade de redução salarial conforme acordo entre as partes;
- Ausência de garantias como décimo terceiro salário, férias remuneradas e FGTS;
- Opção de adesão voluntária por parte do trabalhador, que pode escolher entre o regime tradicional da CLT ou o novo modelo por hora.
Segundo Sóstenes Cavalcante, “na nossa mentalidade, a melhor relação é hora trabalhada, hora recebida”. Ele reforçou que a proposta não pretende substituir a CLT, mas oferecer uma alternativa para quem desejar um vínculo mais flexível.
Entretanto, críticos apontam que a ausência de direitos básicos pode gerar precarização das relações de trabalho, sobretudo para categorias que já enfrentam vulnerabilidades. O texto não estabelece um piso salarial nacional, o que pode abrir espaço para acordos desfavoráveis ao trabalhador.
Reações de parlamentares e setores da sociedade
O posicionamento de Flávio Bolsonaro tem gerado reações distintas dentro do Congresso. Enquanto alguns membros do PL apoiam a iniciativa como forma de dinamizar a economia, figuras como o senador Hamilton Mourão (Republicanos‑RS) manifestaram oposição, acusando colegas de “ceder” diante de pressões externas.
Na Câmara, Sóstenes Cavalcante informou que o PL deve votar a favor da PEC do fim da 6×1 neste momento, pois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já assegurou o apoio necessário para sua aprovação, inclusive de nomes da oposição. Contudo, o mesmo parlamentar destacou que a votação da PEC das horas trabalhadas será adiada para depois das eleições, quando a “vontade do povo” poderá ser mais claramente mensurada.
Organizações sindicais, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), já se posicionaram contra a proposta, argumentando que a flexibilização excessiva pode comprometer direitos conquistados ao longo de décadas. Por outro lado, associações empresariais têm elogiado a ideia, alegando que a liberdade de negociação pode reduzir custos e aumentar a competitividade.
Além dos debates parlamentares, a sociedade civil tem acompanhado o tema por meio de redes sociais e veículos de imprensa. Muitos usuários expressam preocupação com a possibilidade de perda de benefícios, enquanto outros defendem a modernização das relações de trabalho.
Em síntese, a PEC das horas trabalhadas representa um ponto de convergência entre agendas econômicas liberais e demandas por segurança jurídica dos trabalhadores. O futuro da proposta dependerá não apenas do apoio interno ao PL, mas também da resposta do eleitorado nas próximas eleições presidenciais.
Próximos passos e implicações eleitorais
Com a votação da PEC do fim da 6×1 marcada para esta quarta‑feira, 14 de julho, no Senado, a atenção dos analistas está voltada para o desenrolar da agenda legislativa pós‑eleitoral. Caso Flávio Bolsonaro consiga consolidar apoio suficiente, a PEC das horas trabalhadas poderá ser reintroduzida no plenário da Câmara ainda no segundo semestre.
Especialistas apontam que a estratégia de pressionar a aprovação de reformas estruturais após a eleição pode ser vista como tentativa de evitar a polarização que costuma acompanhar grandes mudanças durante campanhas. Ao mesmo tempo, a falta de clareza sobre os impactos reais da proposta pode gerar resistência tanto dentro quanto fora do Congresso.
Para os eleitores, a questão se torna mais do que um debate técnico; trata‑se de avaliar até que ponto a flexibilização do trabalho deve ser permitida em nome da eficiência econômica. A posição de Flávio Bolsonaro sobre o tema poderá influenciar seu desempenho nas urnas, especialmente entre trabalhadores formais e informais que percebem a proposta como potencial ameaça ou oportunidade.
Em conclusão, a PEC das horas trabalhadas permanece como um dos principais projetos de reforma trabalhista em discussão no Brasil. Seu futuro está intrinsecamente ligado ao cenário político que se desenhará após as eleições de outubro, quando o equilíbrio entre crescimento econômico e proteção dos direitos dos trabalhadores será novamente colocado à prova.








