O preço do petróleo Brent ultrapassou a marca de US$ 100 o barril na manhã de 1º de outubro de 2024, apesar da retomada das exportações pelo Estreito de Ormuz. O aumento ocorre em meio ao conflito entre Estados Unidos e Irã, que já dura oito meses, e reflete a preocupação dos mercados com a oferta global. A situação se desenvolve no Golfo Pérsico, região estratégica para o transporte da maior parte da produção petrolífera mundial.
Impacto do conflito na cadeia de suprimentos
Quando as embarcações foram desviadas ou impedidas de atravessar o estreito, os compradores passaram a precificar o risco de uma escassez prolongada, mesmo antes de qualquer falta efetiva de petróleo nos estoques. Essa percepção de risco elevou o preço do Brent e de outros benchmarks internacionais.
A produção de petróleo bruto voltou a níveis próximos ao pré‑conflito, mas o refino não acompanhou a mesma velocidade. As refinarias da região ainda operam abaixo da capacidade plena, o que reduz a oferta de combustíveis como diesel, gasolina e querosene de aviação.
Segundo Felipe Sant’Anna, analista da Axia Investing, “uma coisa é a produção, outra coisa é o refino, outra coisa é a mobilidade, a exportação, seja por oleodutos ou seja mesmo por navios petroleiros”. Essa diferenciação explica por que o preço do barril bruto permanece alto mesmo com o fluxo de crú em recuperação.
Além disso, as seguradoras elevaram os prêmios de risco para navios que cruzam o Estreito de Ormuz, o que encarece o custo de transporte e acaba sendo repassado ao preço final do combustível.
Estoque global e decisões de reserva
A Agência Internacional de Energia (IEA) informou que os estoques globais de petróleo caíram 507 milhões de barris desde fevereiro de 2024, atingindo níveis historicamente baixos. Essa retração pressionou os preços ao limitar a margem de segurança dos mercados.
Para compensar a queda, países membros da OPEP+ e outros produtores liberaram mais de 300 milhões de barris de suas reservas estratégicas. Essas liberações foram temporárias e não foram suficientes para restaurar a confiança plena dos investidores.
- Estoques baixos aumentam a urgência de compras de reposição.
- Liberações de reservas geram alívio pontual, mas não estabilizam o mercado a longo prazo.
- Qualquer nova interrupção no estreito pode drenar rapidamente os estoques remanescentes.
O risco de uma nova escalada militar ou de ataques a instalações de produção, refinarias ou navios continua latente. Mesmo que o estreito esteja aberto, a ameaça de bloqueios futuros mantém os traders cautelosos.
Fatores sazonais e políticas de mitigação
Com a chegada do inverno no Hemisfério Norte, a demanda por energia aumenta significativamente nos Estados Unidos e na Europa. O consumo de petróleo para aquecimento, geração de eletricidade e transporte cresce, pressionando ainda mais os preços.
Para aliviar o impacto nos consumidores, o governo alemão anunciou cortes temporários nos impostos sobre gasolina e diesel. A medida visa reduzir o preço nas bombas, mas não altera o preço internacional do barril.
Outras nações estão avaliando subsídios e incentivos para veículos menos dependentes de combustíveis fósseis, buscando diminuir a pressão sobre a demanda interna durante os meses mais frios.
Perspectivas para os próximos anos
A EIA projeta que, no quarto trimestre de 2024, cerca de 5,7 milhões de barris por dia de produção fiquem parados, em média, devido a manutenção e restrições operacionais. A expectativa é que a maior parte da produção do Oriente Médio retorne a níveis pré‑conflito apenas no segundo trimestre de 2027.
Enquanto isso, o mercado busca sinais de estabilidade. Se o Estreito de Ormuz permanecer aberto e as refinarias aumentarem a capacidade de processamento, a pressão sobre os preços pode diminuir gradualmente.
Entretanto, analistas como Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, apontam que uma queda consistente dos preços dependerá de três fatores: a reposição plena dos estoques globais, a normalização da produção de refino e a ausência de novos choques geopolíticos.
Investidores também acompanham os planos de expansão de infraestrutura de refino na Ásia e nos Estados Unidos, que podem absorver parte da oferta excedente e contribuir para a estabilização dos preços no médio prazo.
Em síntese, a alta do petróleo persiste porque a cadeia de suprimentos ainda apresenta gargalos, os estoques permanecem baixos e o risco de novos desdobramentos geopolíticos continua elevado. A combinação desses elementos mantém o Brent acima de US$ 100 o barril, mesmo com a reabertura parcial do Estreito de Ormuz.








