Três mulheres diagnosticadas com câncer de mama relataram que, após seguirem um protocolo experimental de altas doses de testosterona e outros hormônios, seus tumores evoluíram de estágios iniciais para formas avançadas ou metastáticas. O caso ganhou repercussão nacional em 2024, quando as pacientes divulgaram suas histórias nas redes sociais. O tratamento foi recomendado por uma médica e um cirurgião‑dentista que atuam em consultas virtuais, sem registro de localidade fixa.
O protocolo de hormônios e as promessas de cura
O método prescrito incluía testosterona, progesterona, estradiol e uma série de vitaminas, tudo administrado em doses muito superiores às recomendadas pela comunidade médica. Segundo as pacientes, a proposta era “reprogramar” o organismo para eliminar as células cancerígenas sem necessidade de cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. A promessa de cura rápida e sem efeitos colaterais atraiu as mulheres em momentos de grande vulnerabilidade emocional.
As três pacientes, que tiveram seus nomes substituídos por pseudônimos para preservar a identidade, afirmam que já haviam iniciado ou planejado iniciar o tratamento padrão antes de conhecer o protocolo alternativo. O medo de efeitos adversos da quimioterapia e a esperança de uma solução menos invasiva foram decisivos para a escolha. Elas relataram ainda que foram incentivadas a adquirir medicamentos em farmácias parceiras do dentista, que também atuava como representante comercial.
Quem são os profissionais envolvidos?
A médica Lana Tiani Almeida da Silva foi alvo de investigação em 2024 após divulgar publicamente que o câncer de mama seria, na realidade, “acúmulo de cálcio”. O Conselho Regional de Medicina do Pará abriu processo sigiloso, e a Justiça determinou a retirada dos vídeos em que a afirmação foi feita. Apesar das restrições, a profissional ainda mantém o registro ativo e continua atendendo pacientes por meio de teleconsulta.
O cirurgião‑dentista Marco Antônio Botelho Soares, de São Paulo, também está sob investigação. O Ministério Público de São Paulo o indiciou por charlatanismo, falsidade ideológica e exercício ilegal da medicina, enquanto o Conselho Federal de Odontologia cassou seu registro, proibindo o exercício da odontologia. Botelho oferecia cursos pagos de “modulação hormonal com nanopartículas” que prometiam curar doenças graves, inclusive o câncer.
- Indiciamento: charlatanismo, falsidade ideológica e exercício ilegal da medicina.
- Registro odontológico: cassado pelo CFO.
- Processos: investigação pelo CRM‑PA e sigilo no CFM.
Consequências clínicas observadas
Os exames de imagem apresentados pelas pacientes mostraram aumento significativo das lesões após o início do protocolo hormonal. Enquanto Alice, de 46 anos, inicialmente recebeu diagnóstico de carcinoma invasivo tipo não especial em estágio 2, ela relata que, após alguns meses de tratamento, as imagens indicaram crescimento do tumor e presença de metástases em linfonodos. As demais pacientes relataram evolução similar, passando de tumores localizados para formas metastáticas.
Especialistas em oncologia alertam que a administração de hormônios como a testosterona pode estimular o crescimento de tumores hormonais dependentes. De acordo com o endocrinologista Felipe Gaia, presidente da regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), cerca de dois terços dos cânceres de mama são sensíveis a hormônios, e o bloqueio hormonal é parte essencial do tratamento padrão. O uso indiscriminado de hormônios pode, portanto, acelerar a progressão da doença.
Reação das autoridades e orientações para a população
Além das investigações citadas, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) já havia apontado Botelho como fornecedor de técnicas não reconhecidas pela comunidade científica. O órgão advertiu que a “técnica de modulação hormonal com nanopartículas” não possui comprovação clínica e pode representar risco à saúde. A Justiça determinou a remoção de todo o material promocional que sugeria a cura do câncer.
Os profissionais de saúde recomendam que pacientes com suspeita ou diagnóstico de câncer de mama procurem centros oncológicos credenciados e sigam protocolos baseados em evidências. O tratamento padrão combina cirurgia, quimioterapia, radioterapia e, quando indicado, terapia hormonal direcionada. Qualquer proposta alternativa deve ser analisada criticamente, com base em estudos científicos revisados por pares.
Para evitar cair em armadilhas semelhantes, a SBEM sugere alguns cuidados:
- Desconfiar de promessas de cura rápida sem comprovação.
- Verificar a habilitação profissional no Conselho correspondente.
- Exigir laudos e exames de imagem interpretados por radiologistas certificados.
- Consultar mais de um especialista antes de iniciar qualquer terapia experimental.
Os casos relatados reforçam a importância da informação correta e do acompanhamento médico contínuo. Enquanto a medicina avançada oferece opções cada vez mais eficazes, a desinformação pode transformar esperança em tragédia. As autoridades continuam monitorando práticas suspeitas e reforçando a necessidade de proteção ao consumidor de saúde.








