A Polícia Federal deteve nesta segunda‑feira, 19 de setembro, a mãe do rapper Oruam e o seu irmão, no âmbito da Operação Backbone, que tem como alvo o controle da internet nos Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Contexto da Operação Backbone
A ação da PF surge após meses de investigação sobre o monopólio de serviços de telecomunicações imposto pelo Comando Vermelho (CV). O grupo criminoso utilizava provedores de internet como fonte de receita, cobrando tarifas abusivas e intimidando moradores para que utilizassem a chamada “internet do tráfico”.
Segundo a polícia, os criminosos chegaram a cortar cabos e incendiar caixas de distribuição de operadoras regulares para forçar a adesão aos seus serviços. Essa estratégia garantiu ao CV um fluxo constante de dinheiro, que representou mais de 40% da arrecadação mensal do grupo no Complexo da Penha.
Prisões e mandados cumpridos
A operação resultou na execução de 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão em diversas cidades do estado, incluindo Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Até o momento, 19 pessoas foram efetivamente detidas.
Entre os presos estão Márcia Gama, esposa de Marcinho VP, e Lucas Santos Nepomuceno, irmão do rapper Oruam. Também foi apreendido o vereador carioca Fábio Silva, filiado ao Podemos. Ambos foram levados à sede da PF para interrogatório.
Além das duas primeiras detenções, a PF já havia cumprido mandados contra outros membros da facção, como o próprio Marcinho VP, que permanece preso na Penitenciária Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, há mais de três décadas.
Bloqueio de bens e impacto econômico
A Justiça determinou o bloqueio de bens e valores que chegam a R$ 558 milhões, atingindo 42 empresas e 40 pessoas físicas. Entre as empresas bloqueadas estão provedores de internet, produtoras de eventos, uma contabilidade e diversas sociedades de fachada.
O bloqueio também inclui a suspensão de atividades econômicas e a notificação à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para cassação de outorgas e interdição dos serviços de telecomunicações operados pelos alvos da PF.
- Provedores de internet ligados ao CV
- Empresas de produção de eventos usadas como fachada
- Contabilidade que lavava os recursos
- Imóveis de alto padrão adquiridos com dinheiro vivo
- Criptoativos utilizados para esconder lucros
Acusações e crimes imputados
Os investigados responderão por uma série de crimes graves, entre eles:
- Domínio social estruturado, que pune grupos que impõem controle territorial mediante violência e coação
- Extorsão majorada
- Atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública
- Interrupção de serviço telemático
- Desenvolvimento clandestino de telecomunicações
- Lavagem de dinheiro
Essas acusações refletem a complexidade da estrutura financeira do CV, que utilizava empresas de fachada, contas de passagem e até produtoras de eventos para disfarçar a origem ilícita dos recursos.
Repercussão e próximos passos
A operação recebeu amplo destaque na mídia nacional e gerou debates sobre a necessidade de fortalecer a regulação das telecomunicações em áreas dominadas por organizações criminosas. Especialistas apontam que a desarticulação do monopólio de internet pode reduzir a capacidade de recrutamento e financiamento do CV.
As autoridades reforçaram que a PF continuará monitorando as atividades dos suspeitos e que novos mandados poderão ser expedidos caso surjam indícios de continuidade das práticas ilícitas.
Enquanto isso, a comunidade dos Complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão aguarda a restauração dos serviços de internet regulares, que foram severamente prejudicados pelos confrontos entre traficantes e operadoras oficiais.
O caso também reacendeu a discussão sobre a proteção de direitos humanos nas áreas de conflito, já que a interrupção de serviços essenciais afeta diretamente a qualidade de vida dos moradores.
Em síntese, a Operação Backbone representa um marco no combate ao controle territorial exercido pelo Comando Vermelho, ao atacar uma das principais fontes de receita da facção e ao demonstrar a capacidade das forças de segurança de atuar de forma coordenada em múltiplas frentes.








