A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) divulgou um alerta sobre os impactos do fenômeno El Niño, que deve se intensificar entre o final de 2023 e o início de 2027, afetando a região das Américas. O comunicado destaca ameaças à saúde pública, segurança alimentar e infraestrutura sanitária em vários países.
Impactos esperados do El Niño na saúde e no meio ambiente
O El Niño não é apenas um evento climático; ele desencadeia uma série de problemas que podem agravar doenças transmissíveis e comprometer serviços de saúde. Entre os principais riscos estão:
- Insegurança alimentar aguda
- Secas prolongadas e déficit hídrico
- Enchentes e alagamentos
- Incêndios florestais
Essas condições favorecem a proliferação de mosquitos, contaminam fontes de água e aumentam a exposição a poluentes atmosféricos como o material particulado fino (PM2.5). A Opas já registra mais de 5,2 milhões de pessoas vulneráveis na região.
Países e territórios em situação de emergência
Até o momento, oito nações ou territórios emitiram declarações oficiais de emergência ou alertas climáticos. O monitoramento da Opas identificou:
- Secas ativas ou déficit hídrico em oito países ou territórios
- Incêndios florestais que ameaçam a saúde em seis localidades
- Chuvas intensas e inundações documentadas em cinco países
No Brasil, 630 municípios apresentam níveis de PM2.5 acima do recomendado pela OMS, o que eleva o risco de doenças respiratórias, cardiovasculares e até câncer. A bacia amazônica enfrenta queda nos níveis de água, enquanto o ar se deteriora por causa dos incêndios.
Na América Central, a região conhecida como “Corredor Seco” sofre com insegurança alimentar crítica. Na Guatemala, cerca de três milhões de pessoas vivem em situação de fome aguda, e Honduras tem um risco semelhante para 2,2 milhões de habitantes. O Caribe – Jamaica, Porto Rico e Trinidad e Tobago – também sente os efeitos da escassez de água.
Medidas de resposta e preparação dos governos
O Ministério da Saúde do Brasil lançou, em junho, um conjunto de ações para mitigar os efeitos do El Niño. Entre as iniciativas, destaca‑se a ampliação das bases da Força Nacional do SUS, que agora pode chegar a áreas afetadas em até 12 horas.
Além disso, foi criado o Painel Nacional de Calor Extremo, responsável por monitorar ondas de calor e orientar a população sobre medidas de proteção. Essas ações visam reforçar a capacidade de resposta das equipes de saúde em situações de emergência.
Outros países da região também estão adotando estratégias de adaptação. Na Colômbia, por exemplo, autoridades combinam combate a incêndios florestais com vigilância epidemiológica para dengue, malária e febre amarela, que podem se intensificar com as chuvas.
Especialistas da Opas enfatizam que a probabilidade de um El Niño muito forte supera 90 %, segundo estimativas da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA). Essa alta probabilidade exige mobilização imediata de recursos, planos de contingência e comunicação clara com a população.
Em entrevista, Ciro Ugarte, diretor do Departamento de Emergências de Saúde da Opas, ressaltou que o fenômeno pode gerar interrupções nos serviços de saúde, dificultar o acesso a medicamentos e sobrecarregar hospitais. “É essencial que os países se preparem agora, antes que os impactos se tornem irreversíveis”, alertou.
Para reduzir a vulnerabilidade, a Opas recomenda a implementação de sistemas de alerta precoce, fortalecimento da vigilância sanitária e investimentos em infraestrutura resiliente. A cooperação entre governos, organizações não‑governamentais e o setor privado também é considerada crucial.
O alerta da Opas serve como um chamado à ação para toda a América, lembrando que o clima e a saúde estão interligados. A preparação adequada pode salvar vidas, proteger comunidades e minimizar perdas econômicas em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais intensas.








