O Programa Mundial de Alimentos (PMA) anunciou nesta segunda‑feira, 19 de outubro, que vai cortar a assistência alimentar a cerca de 500 mil palestinos em Gaza devido à falta de recursos financeiros. A medida afeta diretamente a população que já vive em condições humanitárias críticas, após quase dois anos de conflito na região.
Impacto imediato da redução de recursos
A agência das Nações Unidas informou que recebeu menos da metade do financiamento previsto para 2026, comparado aos anos anteriores. Essa queda abrupta obriga o PMA a revisar suas prioridades e a diminuir o número de beneficiários.
O número de pessoas atendidas mensalmente cairá de 1,6 milhão para 1,1 milhão. Essa diminuição representa um recuo de quase 30% na cobertura humanitária, deixando milhares de famílias sem o suporte básico de alimentação.
Além disso, o racionamento de alimentos será reforçado: cada família receberá apenas um pacote de alimentos, em vez de dois, e os sacos de farinha terão volume reduzido. Essa mudança afeta diretamente a segurança alimentar de quem depende exclusivamente da ajuda internacional.
Detalhes das mudanças nos benefícios
O PMA também comunicou que a oferta de refeições quentes diárias será cortada de 250 mil para 150 mil por dia. Essa redução compromete a capacidade de atender crianças, idosos e pessoas com necessidades nutricionais específicas.
O apoio em dinheiro, destinado a 75 mil famílias para a compra de alimentos, terá seu valor reduzido de 1.250 para 750 shekels mensais (aproximadamente de 400 para 240 dólares). Essa diminuição reduz consideravelmente o poder de compra das famílias, que já enfrentam preços inflacionados e escassez de produtos.
- Beneficiários mensais: de 1,6 milhão para 1,1 milhão
- Pacotes de alimentos por família: de 2 para 1
- Refeições quentes diárias: de 250 mil para 150 mil
- Ajuda em dinheiro: de 1.250 shekels para 750 shekels
Shaun Hughes, diretor do PMA nos territórios palestinos, explicou que essas decisões são necessárias para que os recursos disponíveis durem o maior tempo possível. “Não é o momento de desviar o olhar do que acontece em Gaza”, afirmou ao falar com a AFP.
Contexto humanitário em Gaza
Desde o início da ofensiva israelense em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, a população de Gaza tem vivido em condições de extrema vulnerabilidade. Apesar da trégua iniciada há um ano, a insegurança alimentar permanece alta.
Quase 1,4 milhão de pessoas — de um total de 2,1 milhões — ainda se encontram em situação de insegurança alimentar aguda, segundo dados do PMA. Essas pessoas dependem diariamente de doações internacionais para garantir a ingestão mínima de calorias.
Em agosto de 2023, a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC) da ONU declarou oficialmente um estado de fome generalizada em Gaza, o primeiro desse tipo no Oriente Médio. Na época, especialistas alertavam que um em cada três habitantes do enclave passava dias sem comer.
Israel contestou a classificação, chamando‑a de “mentirosa”. Contudo, o cenário humanitário não mudou significativamente, e a necessidade de apoio continua latente.
No final de 2023, as Nações Unidas anunciaram que Gaza deixara de ser considerada em situação de fome, graças ao cessar‑fogo e ao aumento da ajuda humanitária. O PMA conseguiu então ampliar a assistência, alcançando entre 1,5 e 1,8 milhão de pessoas por mês.
Entretanto, a recente escassez de financiamento obriga a agência a reverter esse progresso. Hughes ressaltou que a redução não decorre de falta de acesso humanitário, mas da ausência de recursos financeiros suficientes para manter as operações.
Desafios futuros e chamadas à ação
O PMA estima que precisará urgentemente de US$ 450 milhões nos próximos seis meses para garantir a continuidade das operações críticas em Gaza. Sem esse aporte, a situação pode deteriorar ainda mais, colocando em risco a vida de milhares de civis.
Organizações da sociedade civil, governos e setores privados são convocados a contribuir com doações emergenciais. Cada aporte, por menor que seja, pode representar a diferença entre a sobrevivência ou a fome prolongada de famílias vulneráveis.
Além do financiamento, especialistas apontam a necessidade de estratégias de longo prazo, como a reconstrução de infraestruturas agrícolas, o apoio a cadeias de suprimentos locais e a criação de programas de geração de renda que reduzam a dependência de ajuda externa.
Enquanto isso, a comunidade internacional acompanha de perto as negociações de financiamento e espera que a pressão diplomática resulte em um aumento significativo das contribuições. O futuro da assistência humanitária em Gaza depende, em grande parte, da capacidade de mobilizar recursos de forma rápida e coordenada.
Em resumo, a redução da ajuda alimentar do PMA evidencia a fragilidade do apoio internacional diante de crises prolongadas. A população de Gaza, já marcada por anos de conflito, agora enfrenta um novo obstáculo: a escassez de recursos que pode transformar a situação de insegurança alimentar em fome aberta.








