Na última quinta‑feira, 15 de maio, cientistas e representantes de dezenas de países reunidos em Versalhes, na França, aprovaram a eliminação do chamado “segundo bissexto” a partir de 2027. A decisão, tomada na Conferência Geral de Pesos e Medidas, antecipa em oito anos uma mudança originalmente prevista para 2035. Com a medida, o Tempo Universal Coordenado (UTC) deixará de receber ajustes de um segundo extra para se alinhar à rotação da Terra.
O que é o segundo bissexto e por que ele foi criado
Desde a década de 1970, o UTC tem sido mantido em sincronia com relógios atômicos extremamente precisos, mas que não acompanham exatamente a velocidade de rotação da Terra. Quando a diferença entre o tempo atômico e o astronômico chega a cerca de 0,9 segundo, um segundo extra – o segundo bissexto – é inserido nos relógios oficiais.
Esse ajuste garante que o relógio atômico não se desvie demais do tempo solar, que determina o nascer e o pôr‑do‑sol. Até o momento, 27 segundos bissextos foram adicionados desde 1972, em intervalos irregulares, refletindo variações na velocidade de rotação causadas por movimentos internos do núcleo, correntes oceânicas, atmosferas e marés.
Embora o segundo bissexto seja pouco perceptível para a maioria das pessoas, ele tem um papel crucial em áreas que exigem sincronização exata, como telecomunicações, navegação por satélite e transações financeiras.
Problemas causados pelos ajustes de segundos
Inserir um segundo extra pode gerar falhas em sistemas digitais que não foram projetados para lidar com a mudança repentina de tempo. Em 2012, por exemplo, a inclusão de um segundo bissexto foi associada a interrupções em serviços como Reddit e LinkedIn, além de atrasos em voos da companhia aérea Qantas.
Os principais setores impactados são:
- Redes de telecomunicações, que podem perder pacotes de dados;
- Satélites de navegação, que dependem de timestamps precisos;
- Bolsas de valores, onde frações de segundo influenciam negociações;
- Data centers, que sincronizam servidores em escala global;
- Infraestruturas de energia, que utilizam relógios para balanceamento de carga.
Nos últimos anos, a rotação da Terra tem apresentado períodos de aceleração, levantando a hipótese de que, pela primeira vez, poderia ser necessário remover um segundo – o chamado “segundo negativo”. Esse cenário ainda não foi testado e gera preocupação, pois um ajuste negativo poderia provocar efeitos imprevisíveis em sistemas críticos.
A nova decisão e seus impactos futuros
A partir de 20 de maio de 2027, o UTC poderá se afastar gradualmente do tempo determinado pela rotação terrestre sem a inserção ou remoção de segundos. A diferença entre os dois tempos poderá crescer até quase uma hora, mas esse descompasso levará séculos para se concretizar, segundo especialistas.
Para a população em geral, a mudança não será perceptível no relógio do dia a dia. Os relógios atômicos continuarão marcando o tempo com a mesma precisão, apenas sem os pequenos ajustes periódicos que antes eram necessários.
A comunidade astronômica continuará monitorando a rotação da Terra e, quando precisar de medições extremamente precisas, poderá recorrer diretamente ao tempo astronômico, que reflete a posição do planeta em relação aos astros.
Em termos práticos, a eliminação do segundo bissexto simplifica o desenvolvimento de softwares e a operação de infraestruturas críticas, eliminando a necessidade de lidar com um evento raro e complexo. Essa simplificação pode reduzir custos de manutenção e melhorar a robustez de sistemas que dependem de sincronização global.
Embora a medida seja técnica, ela reflete um consenso internacional sobre a necessidade de adaptar nossos padrões de tempo às realidades tecnológicas atuais. O debate demonstra como a ciência do tempo, que parece distante do cotidiano, tem implicações diretas na estabilidade de serviços que usamos todos os dias.








