Uma pesquisa recente do Projeto Brief, divulgada em setembro de 2023, mostrou que o desinteresse das mulheres pela política está diretamente ligado à sua renda. O levantamento, intitulado “Voto Feminino”, analisou o comportamento de 3.594 eleitoras em todo o Brasil e trouxe números que apontam para um cenário de afastamento nas camadas mais vulneráveis.
Perfil do eleitorado feminino
As mulheres constituem a maior parte do eleitorado nacional, com 83,8 milhões de eleitoras aptas a votar nas próximas eleições de 2026, o que representa 52,8% do total de votantes. Esse peso demográfico traz consigo a necessidade de compreender as diferentes realidades que influenciam a decisão de ir às urnas. A pesquisa segmentou as participantes por faixa salarial, permitindo identificar padrões de engajamento e de abstenção.
Entre as entrevistadas, a maioria tem entre 18 e 64 anos, faixa etária que abrange o núcleo ativo do voto. A maioria também possui nível médio de escolaridade, embora haja variações significativas quando a renda é considerada. Esses dados ajudam a mapear quem são as mulheres que podem se tornar decisivas nas próximas disputas eleitorais.
Desinteresse e abstenção por faixa de renda
O estudo revelou que o desinteresse pela política cresce à medida que a renda diminui. Entre as mulheres que recebem até dois salários mínimos, 23,2% se declararam nada interessadas nos assuntos políticos, enquanto apenas 10,9% das que ganham entre dois e cinco salários mínimos compartilharam o mesmo sentimento. Entre as que recebem mais de cinco salários mínimos, o índice de desinteresse caiu para 6,5%.
Além do desinteresse, a taxa de abstenção – que inclui votos em branco, nulos e ausências – também varia conforme a renda. No grupo de menor renda, 29,1% das mulheres ficaram fora do voto válido nas eleições de 2022, número que supera em mais do que o dobro os 13,1% observados entre as mulheres com renda acima de cinco salários mínimos.
- Até 2 salários mínimos: 23,2% desinteressadas; 29,1% abstencionistas.
- 2 a 5 salários mínimos: 10,9% desinteressadas; 13,1% abstencionistas.
- Acima de 5 salários mínimos: 6,5% desinteressadas; 13,1% abstencionistas.
Esses números indicam que a falta de interesse e a abstenção não são apenas questões de apatia, mas estão ligadas a fatores estruturais como acesso à informação, percepção de representatividade e prioridades cotidianas. Quando a renda é baixa, a preocupação com necessidades imediatas – como alimentação, saúde e educação dos filhos – tende a sobrepor o engajamento político.
Implicações para as próximas eleições e estratégias de engajamento
Carol Luck, coordenadora do Projeto Brief, enfatizou que o objetivo da pesquisa vai além do diagnóstico. Ela destaca a importância de transformar esses dados em estratégias de comunicação que dialoguem diretamente com as mulheres que estão indecisas ou afastadas do processo eleitoral. “Queremos que os dados não fiquem só no diagnóstico e ajudem, de fato, na produção de uma comunicação que dialogue com esse público”, afirmou Luck.
A plataforma Decisivas, desenvolvida pelo Projeto Brief, oferece recursos gratuitos – como pesquisas, escuta digital e testes de mensagem – para organizações da sociedade civil, comunicadores e campanhas. Essa ferramenta pode ser utilizada para criar mensagens que abordem temas relevantes para as mulheres de baixa renda, como educação, segurança e políticas de assistência social.
Para mobilizar esse segmento, especialistas recomendam o uso de linguagem simples, canais de comunicação populares (como rádio comunitária e grupos de WhatsApp) e a presença de lideranças locais que compreendam as necessidades da comunidade. Mensagens que mostrem o impacto direto das decisões políticas na vida cotidiana tendem a gerar maior engajamento.
Além disso, a inclusão de mulheres nas campanhas, tanto como candidatas quanto como porta-vozes, pode aumentar a sensação de representatividade. Quando as eleitoras veem suas próprias experiências refletidas nas propostas, a motivação para participar do processo eleitoral costuma crescer.
Em resumo, o estudo evidencia que o desinteresse político entre as mulheres brasileiras não é homogêneo. Ele varia de acordo com a renda, o que demanda abordagens diferenciadas para garantir que todas as vozes sejam ouvidas nas próximas eleições. A combinação de dados precisos, comunicação direcionada e apoio institucional pode transformar o cenário atual e reduzir a taxa de abstenção entre as mulheres de menor renda.








