A Motorola foi condenada pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) a ajustar a forma como anuncia a memória RAM de seus smartphones no Brasil. A decisão foi tomada na reunião do Conselho realizada em 24 de setembro de 2024, em São Paulo. O caso ganhou destaque após investigação do portal Tecnoblog.
Entenda a prática de inflar a memória RAM
Desde o final de 2023, a fabricante começou a somar a memória RAM física com a chamada RAM virtual ou “RAM Boost Inteligente” ao divulgar as especificações técnicas de alguns modelos. Essa soma gera números que parecem superiores ao que o usuário realmente dispõe no aparelho.
Na indústria, a prática aceita é mencionar a RAM virtual em um campo separado, geralmente em notas de rodapé, para evitar confusão. Ao colocar o total em destaque, a Motorola acabou criando a impressão de que o dispositivo possui mais memória real do que efetivamente oferece.
Exemplos recentes ilustram bem o problema:
- Motorola Edge 70 Pro – anúncio exibe “até 24 GB de RAM”, mas a ficha técnica revela 12 GB de RAM física e 12 GB de RAM Boost.
- Motorola Moto G86 – publicidade indica 24 GB de RAM, sendo apenas um terço (8 GB) de RAM real.
Essas informações infladas podem induzir o consumidor a acreditar que o desempenho será superior ao realmente entregue, principalmente em tarefas que exigem memória constante, como jogos e multitarefa.
A decisão do Conar e suas implicações
O Conselho de Ética do Conar reuniu-se no dia 24 de setembro de 2024 e, por unanimidade, determinou que a Motorola deve mudar sua conduta publicitária. A deliberação foi baseada no artigo 27 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, que exige descrição verdadeira do produto e proíbe informações que possam induzir o erro.
A penalidade não é judicial, mas tem força normativa no mercado. As empresas costumam adaptar suas campanhas rapidamente para evitar sanções de agências de mídia e reclamações de consumidores.
Na prática, a Motorola terá que revisar todos os materiais de divulgação, tanto digitais quanto impressos, incluindo sites, lojas virtuais, anúncios em redes sociais e pontos de venda físicos. Cada peça publicitária deverá separar claramente a memória física da RAM virtual.
Uma fonte interna, que preferiu manter o anonimato, explicou ao Tecnoblog que a mudança deverá ser implementada em até 30 dias, sob risco de novas advertências. A empresa ainda pode recorrer da decisão, mas, até o momento, não há indícios de recurso.
O que muda para consumidores e revendedores
Para o consumidor final, a principal vantagem será a transparência nas informações técnicas antes da compra. Ao saber exatamente quantos gigabytes de RAM física o aparelho possui, o comprador pode comparar modelos de forma mais justa.
Os revendedores também precisarão atualizar as fichas de produto nos sistemas de ponto de venda (PDV) e nas plataformas de e‑commerce. Isso inclui a reformulação de etiquetas, banners e materiais de treinamento de equipe de vendas.
Além da correção de números, a Motorola deverá reforçar a comunicação sobre o funcionamento da RAM virtual, explicando que ela funciona como um recurso de otimização de memória, mas não substitui a RAM física.
Os especialistas em direito do consumidor ressaltam que a decisão do Conar serve como alerta para outras marcas que utilizam estratégias semelhantes. A prática de “inflar” especificações pode ser considerada publicidade enganosa, sujeita a multas e sanções administrativas.
Para garantir que a mudança seja efetiva, o Conar recomenda que as empresas adotem as seguintes boas práticas:
- Separar claramente a memória física da RAM virtual em todas as peças de divulgação.
- Utilizar notas de rodapé ou campos explicativos para detalhar o funcionamento da RAM Boost.
- Realizar auditorias internas antes do lançamento de campanhas publicitárias.
- Treinar equipes de marketing e vendas sobre as exigências do Código de Autorregulamentação.
Com essas medidas, o risco de novas penalizações diminui, e a confiança do consumidor tende a crescer.
Vale lembrar que o Conar, embora seja uma entidade privada, tem um papel regulatório forte no mercado publicitário brasileiro. Suas decisões são observadas por agências, veículos de mídia e pelos próprios consumidores, que podem registrar reclamações por meio do site Reclame Aqui ou dos canais de defesa do consumidor.
Em caso de descumprimento, o Conar pode aplicar advertências, suspensões de campanhas ou até a exclusão da marca de bancos de dados de mídia. Por isso, a maioria das empresas prefere atender rapidamente às recomendações.
Para a Motorola, a situação representa um alerta estratégico. A empresa tem investido em inovação de hardware e software, mas a forma como comunica esses diferenciais pode impactar diretamente a percepção de valor da marca.
Analistas de mercado apontam que a transparência nas especificações pode ser um diferencial competitivo, especialmente em um segmento onde os consumidores são cada vez mais exigentes e informados.
Além disso, a correção das informações pode influenciar positivamente as avaliações em sites de comparação de produtos, como o Zoom ou o Buscapé, que consideram a clareza das especificações como um critério de qualidade.
Em síntese, a decisão do Conar reforça a importância de uma comunicação honesta e detalhada. A Motorola tem agora a oportunidade de ajustar sua estratégia de marketing, melhorar a confiança do público e evitar futuras controvérsias.
Continuaremos acompanhando o desenrolar desse caso e atualizaremos o público assim que houver novos desdobramentos ou pronunciamentos oficiais da Motorola.

26 anos, programador, músico.
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