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Morte de Rick expõe o apagamento da presença negra no sertanejo brasileiro

O cantor Rick foi encontrado morto nesta terça‑feira (22) após um acidente de helicóptero em Santa Catarina, encerrando a trajetória de uma das poucas vozes negras que alcançaram o topo do sertanejo. O trágico acontecimento reacende o debate sobre a invisibilidade histórica de artistas pretos dentro de um gênero dominado por músicos brancos.

Um legado interrompido

Rick, que integrava a dupla Rick & Renner, vivia entre os palcos de grandes casas de shows, como o Vila Country, em São Paulo, e as rádios que ainda tocam o sertanejo em volume máximo. Sua carreira, marcada por sucessos regionais, também foi marcada por episódios de preconceito que ele próprio relatou em entrevistas recentes.

Em entrevista ao canal de André Piunti no YouTube, Rick contou que uma fã, ao solicitar foto com a dupla, disse abertamente que “não gostava de negros”. Renner, seu parceiro, recusou o pedido, mas o fato ficou gravado na memória do cantor como um exemplo da hostilidade cotidiana que enfrentava.

História de exclusão racial no sertanejo

Para entender o contexto, é preciso voltar a 1996, quando João Paulo e Daniel, dupla negra, ocuparam a terceira posição no Top 10 das rádios sertanejas. Foi a última vez que um artista preto chegou a essa posição até a morte de João Paulo, que também sofreu pressão de executivos para formar uma dupla de aparência branca.

Segundo Luiz Antonio Guerra, doutor em Sociologia pela USP, a ausência de nomes negros no sertanejo reflete o apagamento das raízes africanas da música caipira, que foram sistematicamente excluídas a partir da modernização cultural dos anos 1930.

  • Década de 1930: industrialização da música popular e exclusão de influências negras.
  • Anos 1950: artistas como Cascatinha & Inhana têm rostos clareados nas capas para ampliar vendas.
  • Década de 1990: poucos artistas negros conseguem romper a barreira do Top 10.

O jornalista André Piunti aponta que a indústria fonográfica, ao transformar a música em produto comercial, impôs padrões estéticos que favoreciam artistas brancos, reduzindo a visibilidade de cantores pretos.

Racismo institucionalizado nas capas e nos shows

Mesmo ícones consagrados como Tião Carreiro tiveram suas imagens modificadas para atender a um mercado que temia a reação do público diante de rostos negros. As capas dos discos foram retocadas, apagando traços que revelavam a origem afro‑descendente dos artistas.

Essa prática não se limitava às capas: nas turnês, promotores evitavam contratar músicos negros, temendo que o público “não aceitasse”. A lógica era simples – quanto mais branco o artista, maior a chance de sucesso comercial.

Rick relatou ainda que, em algumas ocasiões, produtores sugeriram que ele trocasse de parceiro para formar uma dupla “mais comercial” composta por dois cantores brancos, reforçando a ideia de que a cor da pele ainda era um critério de viabilidade.

O caminho para a mudança

Especialistas concordam que a única forma de romper a bolha racial no sertanejo é através de um sucesso estrondoso de alcance nacional por parte de um artista negro. Enquanto isso, o mercado continua a privilegiar números de streaming e vendas que favorecem artistas brancos, mantendo a proporção de 10 artistas pretos para cada 100 brancos nas paradas.

Para que haja mudança estrutural, é necessária a criação de políticas de inclusão dentro das gravadoras, bem como o apoio de plataformas digitais que possam dar visibilidade a talentos subrepresentados.

Organizações de direitos civis têm pressionado por cotas de produção e divulgação, mas encontram resistência de um segmento da indústria que ainda vê o sertanejo como um “campo neutro” em termos de raça.

Enquanto isso, fãs e movimentos sociais utilizam as redes sociais para celebrar a memória de Rick, lembrando seu talento e denunciando o racismo que ainda permeia o gênero.

O legado de Rick, portanto, não se encerra com sua morte; ele se transforma em um ponto de partida para uma discussão que exige ação concreta, tanto da indústria musical quanto do público que consome o sertanejo diariamente.

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