Na quinta‑feira, 10 de julho, a Polícia Federal e a Controladoria‑Geral da União deflagraram a Operação Make Up, que tem como alvo o deputado federal Mario Frias, do PL, e empresas ligadas ao filme “Dark Horse”. A ação investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares e ocorre em quatro unidades da federação.
Contexto da Operação Make Up
A Operação Make Up foi coordenada pelo Ministério da Justiça e conta com a participação de 49 mandados de busca e apreensão. As diligências foram realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal, mas não foram expedidos mandados de prisão. O objetivo central é rastrear o caminho do dinheiro destinado a projetos culturais e verificar se parte desses recursos foi desviada para fins pessoais ou políticos.
Segundo o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, a investigação abrange crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e infrações licitatórias. O caso ganha ainda mais destaque por envolver a produção de um filme que retrata a vida do ex‑presidente Jair Bolsonaro, gerando intenso debate sobre a relação entre cultura e poder.
Trajetória política e cultural de Mario Frias
Mario Frias ganhou notoriedade como ator antes de ingressar na vida pública. Durante o governo Bolsonaro, ocupou o cargo de secretário especial da Cultura, posição que deixou para concorrer à Câmara dos Deputados. Ele foi eleito deputado federal por São Paulo pelo Partido Liberal (PL) e, desde então, tem atuado em comissões ligadas à cultura e à educação.
No universo cinematográfico, Frias trabalhou como roteirista e produtor‑executivo de “Dark Horse”, filme que tem Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. A produção foi anunciada como uma obra independente, mas rapidamente passou a ser alvo de suspeitas após a divulgação de mensagens que sugeriam apoio financeiro de grandes empresários.
A relação de Frias com a produtora de Karina Ferreira da Gama antecede o filme. Em 2022, a empresa GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, de Karina, recebeu R$ 54 mil para desenvolver a campanha eleitoral de Frias. No ano seguinte, já como deputado, ele destinou R$ 2,5 milhões em emendas parlamentares para que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade vinculada a Karina, aplicasse recursos em projetos sociais no interior paulista.
Financiamento do filme “Dark Horse” e as denúncias
Em maio, mensagens e áudios atribuídos a Frias e ao ex‑banqueiro Daniel Vorcaro foram divulgados pela imprensa. Em um dos trechos, Frias agradece a Vorcaro pelo apoio ao filme, embora tenha afirmado inicialmente que nenhum centavo do banqueiro havia sido investido na produção. Mais tarde, o deputado recuou, alegando que Vorcaro e o Banco Master não eram investidores diretos, mas que existia uma relação jurídica com a empresa Entre Investimentos.
Documentos obtidos pelo site Intercept Brasil e confirmados pela TV Globo apontam que Vorcaro teria repassado ao menos R$ 61 milhões ao projeto. A Polícia Federal investiga se esses recursos foram efetivamente utilizados no financiamento do filme ou se parte deles foi desviada para outras finalidades, possivelmente vinculadas a campanhas eleitorais ou a empresas parceiras.
Os investigadores também analisam a cadeia de pagamentos envolvendo a produtora Karina Ferreira da Gama, a GO7 Assessoria e o Instituto Conhecer Brasil. As suspeitas incluem:
- Direcionamento de chamamento público para empresas sem capacidade técnica comprovada;
- Suposto sobrepreço em contratos de prestação de serviços;
- Pagamentos por serviços que não foram efetivamente executados.
Essas práticas, se confirmadas, configurariam crimes de licitação e improbidade administrativa, além de potencial lavagem de dinheiro.
Repercussões e próximos passos da investigação
A Operação Make Up trouxe à tona um debate sobre a transparência no uso de emendas parlamentares e o papel das empresas culturais na política. Organizações de monitoramento de gastos públicos já solicitaram que o Tribunal de Contas da União abra uma auditoria independente sobre os repasses feitos por Frias ao Instituto Conhecer Brasil.
Além disso, a imprensa tem cobrado respostas da defesa de Mario Frias, que ainda não se pronunciou oficialmente sobre as acusações. O deputado, por sua vez, mantém que todas as transações foram realizadas dentro da legalidade e que as investigações são motivadas por interesses políticos.
O Ministério Público Federal já indicou que pretende apresentar denúncia ao Supremo Tribunal Federal, caso as investigações confirmem a prática de crimes como peculato e lavagem de dinheiro. Enquanto isso, a Controladoria‑Geral da União continua analisando os documentos fiscais das empresas envolvidas.
Para o público, a situação reforça a necessidade de acompanhar de perto a destinação de recursos públicos, sobretudo quando eles são vinculados a projetos culturais que podem ter grande impacto na opinião pública. A transparência e a prestação de contas são pilares essenciais para garantir que a cultura não seja usada como ferramenta de favorecimento político.
De modo geral, o caso de Mario Frias ilustra como a interseção entre política, cultura e grandes investidores pode gerar conflitos de interesse que exigem investigação rigorosa. A Operação Make Up segue em curso, e os próximos dias deverão trazer novos desdobramentos, incluindo possíveis prisões preventivas, bloqueios de contas e a divulgação de relatórios detalhados sobre o fluxo de recursos.








