Em 22 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco da 81ª Assembleia‑Geral das Nações Unidas, em Nova York, para apresentar o discurso que encerra um ciclo de quatro intervenções anuais desde 2023. O pronunciamento, transmitido ao vivo para milhões de espectadores, abordou temas que marcam a evolução da política externa brasileira ao longo de duas décadas de presença no plenário da ONU.
Do otimismo social ao protagonismo climático
No primeiro período de atuação (2003‑2008), Lula utilizou a ONU como vitrine para o projeto de desenvolvimento inclusivo que sustentava seu governo. O discurso enfatizava a redução da pobreza, a expansão do comércio Sul‑Sul e a crítica ao protecionismo agrícola dos países desenvolvidos, apresentando o Brasil como exemplo de crescimento sustentável.
- Inclusão social: programas como o Bolsa Família foram citados como modelo de combate à fome.
- Comércio Sul‑Sul: a ampliação de acordos com África e América Latina foi destacada como estratégia de diversificação.
- Crítica ao protecionismo: Lula denunciou barreiras tarifárias impostas por potências ocidentais ao agronegócio brasileiro.
Esses temas permaneceram como pilares da retórica internacional, mas foram gradualmente reconfigurados à medida que novas ameaças globais surgiram. A partir de 2023, o presidente passou a posicionar o Brasil na vanguarda da luta contra a emergência climática, reconhecendo a urgência de ações coordenadas para limitar o aquecimento global.
Novas prioridades: clima, tecnologia e democracia
Nos discursos mais recentes (2023‑2026), a agenda climática ocupa o centro do discurso. Lula destacou o compromisso do Brasil com a redução de desmatamento na Amazônia, a ampliação de energia renovável e a liderança em negociações para a criação de um fundo global de adaptação para países vulneráveis.
- Emergência climática: propostas de metas ambiciosas para zero desmatamento até 2030.
- Energia limpa: investimentos em hidrogênio verde e solar em escala nacional.
- Financiamento internacional: defesa de mecanismos de apoio financeiro a nações em desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, a governança digital emergiu como um tema recorrente. O presidente alertou para a necessidade de regular as plataformas de tecnologia, combater a desinformação e proteger os direitos dos usuários no ambiente virtual, apontando as Big Techs como atores que podem ameaçar a soberania nacional.
- Regulação das plataformas: proposta de criar um marco legal brasileiro para redes sociais.
- Proteção de dados: reforço da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) com sanções mais rígidas.
- Combate à desinformação: cooperação internacional para monitorar campanhas falsas.
Outro eixo fundamental foi a defesa explícita do Estado Democrático de Direito. Lula condenou o extremismo político, reforçou o papel das instituições e pediu à comunidade internacional que apoie países que enfrentam retrocessos autoritários.
Continuidade e rupturas na política externa brasileira
Apesar das mudanças de foco, alguns elementos permaneceram inalterados. O combate à fome e à pobreza continua sendo um argumento moral que legitima a atuação do Brasil nas instâncias multilaterais. Da mesma forma, o multilateralismo e a solução pacífica de conflitos permanecem como fundamentos da diplomacia lusocrata.
Entretanto, rupturas significativas podem ser observadas. A transição de uma retórica centrada na expansão comercial para uma ênfase na liderança climática representa uma mudança estratégica que reflete a realidade de um planeta em aquecimento. Além disso, a inserção da governança digital no discurso oficial demonstra a adaptação do país às transformações tecnológicas que moldam as relações internacionais.
Novas pautas surgiram e ganharam destaque:
- Regulação de Big Techs e soberania digital.
- Defesa do Estado de Direito contra movimentos autoritários.
- Combate ao crime organizado transnacional e promoção de direitos trabalhistas globais.
Essas inserções ampliam o escopo da política externa, indicando que o Brasil busca se posicionar não apenas como fornecedor de commodities, mas como ator capaz de influenciar normas globais em áreas emergentes.
Desafios futuros e a posição do Brasil no cenário global
O futuro da diplomacia brasileira dependerá da capacidade de conciliar interesses domésticos com demandas internacionais cada vez mais complexas. O país precisará equilibrar a produção agrícola – ainda vital para sua economia – com metas ambiciosas de preservação ambiental, evitando o risco de ser acusado de “greenwashing”.
Na esfera digital, a proposta de regulação nacional deverá ser negociada com parceiros internacionais, garantindo que medidas de proteção de dados não se transformem em barreiras ao comércio eletrônico. O sucesso dessa agenda pode servir de modelo para outras nações em desenvolvimento.
Por fim, a defesa da democracia permanece como um ponto de convergência entre diferentes frentes de ação. Ao articular alianças com países que compartilham valores liberais, o Brasil tem a oportunidade de fortalecer instituições multilaterais e promover um sistema internacional mais equilibrado, onde a soberania de cada nação seja respeitada sem abrir mão da cooperação.








