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Lancet Countdown recomenda declarar crise climática como emergência de saúde global

A comissão Lancet Countdown divulgou, nesta terça‑feira, 27 de março, um relatório que recomenda classificar a crise climática como emergência de saúde global. O documento, elaborado por 146 pesquisadores de mais de 100 instituições, alerta para o aumento acelerado dos danos à saúde provocados pela desregulação do clima. A recomendação surge após a constatação de que os impactos sanitários se intensificaram nos últimos dez anos, apesar dos esforços internacionais.

Dados alarmantes sobre mortalidade por calor

O estudo aponta que, somente em 2023, foram registrados 710 mil óbitos ligados ao calor extremo, sendo 70% atribuídos a eventos climáticos intensificados por ações humanas. Esse número representa um salto de 36% em relação à década anterior, evidenciando que as ondas de calor estão se tornando mais frequentes e mortais. Os pesquisadores ressaltam que a maioria das mortes ocorreu em áreas urbanas, onde o efeito de ilha de calor amplifica a temperatura ambiente.

Além do calor, a seca prolongada tem comprometido a segurança alimentar e o acesso a água potável. Desde 2023, 80% das áreas terrestres do planeta apresentam alterações nos padrões de água subterrânea, afetando tanto a produção agrícola quanto o saneamento básico. O fenômeno foi detectado por satélites e ocorre não apenas em períodos de escassez, mas também durante as estações chuvosas, indicando uma mudança estrutural nos ciclos hidrológicos.

Impactos na saúde pública e respostas dos sistemas de saúde

Os especialistas destacam que, entre 2016 e 2025, os efeitos à saúde foram mais pronunciados do que na década anterior, mesmo após a assinatura do Acordo de Paris em 2015. Esse cenário evidencia que a resposta global ainda está aquém da magnitude dos danos. No relatório, os autores defendem que as políticas climáticas sejam guiadas pelos indicadores de saúde, integrando metas de redução de gases de efeito estufa a estratégias de proteção da população.

Um ponto positivo apontado é a mobilização dos sistemas de saúde. Atualmente, 56 dos 194 Estados‑membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) já possuem planos nacionais de adaptação dos serviços de saúde às mudanças climáticas. Esses planos incluem a criação de unidades de alerta precoce, a capacitação de profissionais para lidar com doenças relacionadas ao clima e a reforçada infraestrutura hospitalar em regiões vulneráveis.

Investimentos em energia limpa e seus reflexos na saúde

O relatório registra que os investimentos globais em energia limpa atingiram, no último ano, 2,1 trilhões de dólares, um aumento de 7,2% em relação ao período anterior. Esse valor representa 82% a mais que o total investido em combustíveis fósseis (1,16 trilhão de dólares). A transição para fontes renováveis tem gerado benefícios diretos à saúde, como a redução da poluição do ar.

Em 77 países onde a poluição atmosférica diminuiu desde 2016, foram evitadas aproximadamente 323 mil mortes anuais. A melhora na qualidade do ar está associada à queda de doenças respiratórias, cardiovasculares e até de alguns tipos de câncer. Os autores do Lancet Countdown afirmam que esses resultados demonstram que a ação climática centrada na saúde funciona, embora o ritmo de redução de emissões ainda seja insuficiente para acompanhar a velocidade dos danos.

Recomendações para políticas públicas e próximos passos

Para transformar a recomendação em ação, os pesquisadores propõem que governos e organizações internacionais adotem três medidas prioritárias: (1) integrar indicadores de saúde em todas as avaliações de políticas climáticas; (2) ampliar o financiamento de projetos de adaptação nos sistemas de saúde, especialmente em países de baixa renda; e (3) acelerar a descarbonização dos setores de energia, transporte e indústria.

  • Estabelecer metas de redução de emissões alinhadas ao objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 °C.
  • Implementar programas de monitoramento da qualidade do ar em áreas urbanas vulneráveis.
  • Desenvolver redes de alerta precoce para ondas de calor e eventos de seca.
  • Capacitar profissionais de saúde para reconhecer e tratar doenças relacionadas ao clima.

Marina Romanello, diretora‑executiva do Lancet Countdown, enfatiza que “os danos à saúde causados pelas mudanças climáticas estão aumentando mais rapidamente que a resposta global”. Ela alerta que, sem ações coordenadas, a crise climática pode se tornar a maior ameaça à saúde pública da história moderna. O relatório, portanto, serve como um chamado urgente para que a saúde seja o eixo central das decisões climáticas nos próximos anos.

Anthony Costello, copresidente do Lancet Countdown, reforça que “sistemas de alerta mais eficientes, ar mais limpo e sistemas de saúde resilientes já estão salvando vidas”. Contudo, ele adverte que a escala das reduções de emissões ainda está totalmente desproporcional ao ritmo dos danos observados. A mensagem final do estudo é clara: a emergência climática deve ser tratada como uma emergência de saúde global, com políticas integradas e investimentos robustos.

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