Kiko Dinucci lançou nesta quarta‑feira, 9 de setembro, o seu terceiro álbum solo intitulado Medusa. O disco chega ao público através do selo Risco e foi gravado em São Paulo, a mesma metrópole que serve de inspiração para a maioria das composições. Com dez faixas totalmente autorais, o projeto mistura guitarras, fitas analógicas e samplers, criando um panorama sonoro que dialoga com a agitação da cidade.
Um álbum que mistura tradição e ruído
O primeiro destaque de Medusa é a capacidade de Kiko de unir referências da música popular brasileira a experimentações sonoras. Em faixas como “Como foi?”, a balada de coração partido ganha contornos de samba‑rock, mas se transforma na metade final ao ser invadida por camadas de ruído industrial. Essa justaposição lembra o trabalho de artistas como Roberto Carlos ou Nando Reis, porém com uma abordagem que ultrapassa esses nomes ao introduzir texturas mais agressivas.
Outra canção que exemplifica essa dualidade é “Segundo eterno”, escrita para a trilha sonora da peça teatral “Avenida Paulista” (2025). O tema segue a cadência do samba tradicional, mas incorpora efeitos de distorção que remetem ao ambiente urbano de São Paulo, onde a “calçada, gente correndo rumo à morte” se torna uma metáfora para a velocidade da vida citadina.
O álbum também traz momentos de pura experimentação, como na faixa “Água viva”, parceria com a produtora conhecida como Podeserdesligado. O resultado é um som que flutua entre o improviso eletrónico e a melodia acústica, criando uma atmosfera que parece respirar a própria cidade.
Colaborações que ampliam o universo sonoro
Um dos pontos fortes de Medusa são as diversas colaborações que enriquecem a textura musical. Kiko conta com a participação de Romulo Fróes em “Como foi?”, trazendo uma sensibilidade lírica que complementa a voz grave do cantor. A presença de Maria Beraldo em “Cascuda” adiciona um timbre feminino que contrasta com a melancolia das guitarras.
Além disso, o álbum apresenta a parceria com o guitarrista Lello Bezerra na faixa de abertura “Cão perdido”, que cria um clima de urgência e desorientação, como se o ouvinte estivesse perdido na selva de pedra de São Paulo. A colaboração com Sophia Chablau em “Água viva” e com Crystal Duarte em “Loira Palmer” amplia ainda mais o leque de influências, trazendo elementos de música experimental e de cinema surrealista.
- “Cão perdido” – colaboração com Lello Bezerra
- “Água viva” – parceria com Sophia Chablau e Podeserdesligado
- “Casca do olho” – participação de Gustavo Infante
- “Loira Palmer” – coautoria com Crystal Duarte
Essas parcerias não são meras adições; elas funcionam como peças de um quebra‑cabeça que, juntas, revelam a complexidade da identidade musical de Dinucci. Cada convidado traz seu próprio universo, mas todos convergem para o mesmo objetivo: retratar a cidade como um organismo vivo, caótico e ao mesmo tempo fascinante.
A estética visual e o conceito de Medusa
A capa do álbum foi criada pela artista plástica Tatiana Blass, inspirada na música “Faca da palavra”. A obra visual apresenta linhas entrelaçadas que lembram serpentes, reforçando a alusão ao mito de Medusa, cujo olhar transformava tudo em pedra. Essa escolha estética reforça a ideia de que a cidade pode ser tanto um lugar de petrificação quanto de revelação.
O conceito por trás do título também se reflete nas letras. Em “Cão perdido”, por exemplo, o personagem‑título vagueia sem destino, simbolizando a sensação de desorientação que muitos sentem ao percorrer as avenidas paulistanas. O uso de metáforas urbanas, como “calçada, gente correndo rumo à morte”, cria um panorama poético que combina crítica social e introspecção pessoal.
Além das referências visuais, o álbum incorpora técnicas de gravação analógica, como o uso de fitas magnéticas, que conferem ao som uma textura quente e orgânica. Essa escolha contrasta com os samplers e os efeitos digitais, gerando um equilíbrio entre o passado e o futuro da produção musical.
Em resumo, Medusa se apresenta como um documento sonoro que captura a essência da selva urbana de São Paulo. Kiko Dinucci, ao cruzar guitarras, ruídos experimentais e colaborações diversas, oferece ao ouvinte um mapa auditivo da cidade, onde cada esquina revela um novo som, um novo sentimento. O álbum não apenas confirma a importância de Dinucci na cena indie paulistana, mas também expande os limites do que pode ser considerado música popular brasileira contemporânea.








