O Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora do filme “Dark Horse”, liderada por Karina Ferreira da Gama, transferiram R$ 100 mil para a União Nacional das Igrejas e Pastores Evangélicos (Unigrejas) durante o período de 2025‑2026, conforme documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citados pela Polícia Federal (PF). As movimentações foram reveladas após a decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que autorizou buscas nesta quinta‑feira, 10 de julho, em investigação sobre suposto desvio de emendas parlamentares.
Contexto da investigação e origem dos recursos
A PF está analisando alegações de que emendas parlamentares destinadas a projetos sociais teriam sido desviadas para entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”. Segundo o Coaf, o ICB recebeu R$ 2 milhões de duas emendas do deputado federal Mario Frias (PL‑SP), recursos que deveriam financiar iniciativas como o programa Jovem Empreendedor, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e o projeto Lutando pela Vida, do Ministério do Esporte.
Esses valores, originalmente públicos, foram objeto de auditorias da Controladoria‑Geral da União (CGU) que apontaram inconsistências nas contratações e na aplicação dos recursos. A investigação concentra‑se em identificar se parte desses recursos foi canalizada para a Unigrejas por meio de transferências diretas ou indiretas, configurando possível uso indevido de verba pública.
Detalhes das transferências financeiras
O relatório do Coaf indica que o ICB enviou R$ 50 mil à Unigrejas, enquanto Karina Ferreira da Gama, presidente do instituto, efetuou outra transferência de R$ 50 mil. Além dessas duas operações, foram identificados mais de R$ 1 milhão em depósitos na conta da entidade religiosa, dos quais aproximadamente R$ 928 mil foram realizados em espécie, distribuídos em diferentes cidades do país.
Os registros abrangem o intervalo de 22 de outubro de 2025 a 16 de abril de 2026, totalizando movimentações de R$ 7.782.423, valor que inclui tanto entradas quanto saídas de recursos da conta da Unigrejas. O documento não detalha as datas individuais nem a finalidade específica de cada depósito, nem relaciona de forma direta os pagamentos feitos pela Unigrejas com as transferências recebidas do ICB e de sua presidente.
Repercussões políticas e jurídicas
A decisão de Flávio Dino autorizou buscas em endereços vinculados ao Instituto Conhecer Brasil e a outras empresas investigadas, mas a Unigrejas não foi incluída na lista de alvos das diligências. A PF ressalta que os dados do Coaf não cobrem a totalidade das operações analisadas, indicando que ainda podem existir movimentações não identificadas nos relatórios.
Especialistas em direito público alertam que, se comprovado o uso de recursos públicos para fins particulares ou religiosos, os responsáveis podem enfrentar processos por improbidade administrativa, crime de lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas. O caso também pode gerar debate sobre a transparência no uso de emendas parlamentares e a necessidade de maior controle sobre as destinações de fundos públicos.
Reações da sociedade civil e da comunidade evangélica
Representantes da Unigrejas não responderam aos pedidos de entrevista realizados pelo g1 até o momento da publicação. Organizações de monitoramento de finanças públicas destacam a importância de acompanhar de perto esse tipo de operação, sobretudo quando envolve instituições religiosas que recebem grandes somas em espécie.
Ao mesmo tempo, grupos de apoio ao filme “Dark Horse” argumentam que a produção busca retratar a trajetória do ex‑presidente Jair Bolsonaro e que as doações à Unigrejas podem ter sido motivadas por laços ideológicos ou de apoio comunitário, sem necessariamente indicar irregularidade.
Próximos passos da investigação
O Ministério da Justiça e Segurança Pública deve analisar os resultados das buscas autorizadas e decidir se há necessidade de expandir o escopo da investigação para incluir a Unigrejas ou outras entidades que receberam recursos. Enquanto isso, a CGU continuará a revisar as auditorias já realizadas e a PF poderá solicitar novos documentos financeiros ao ICB e à produtora Go UP Entertainment.
Em paralelo, a sociedade civil e os órgãos de imprensa acompanham o caso, ressaltando a importância da transparência e da prestação de contas no uso de recursos públicos, especialmente quando há interseção entre política, mídia e organizações religiosas.
- Transferência total de R$ 100 mil do ICB e de sua presidente para a Unigrejas;
- Mais de R$ 1 milhão em depósitos na conta da Unigrejas, com R$ 928 mil em espécie;
- Investigações focadas em suposto desvio de emendas parlamentares de R$ 2 milhões;
- Busca autorizada por decisão do ministro Flávio Dino (STF) em 10 de julho;
- Possíveis consequências jurídicas: improbidade, lavagem de dinheiro e desvio de verbas públicas.








