O congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), realizado em Madri, revelou avanços significativos na imunoterapia para o câncer de endométrio. Os resultados, divulgados em 26 de setembro de 2024, apontam novas estratégias que podem mudar o panorama do tratamento. Especialistas destacam a possibilidade de reduzir a dependência da quimioterapia em pacientes selecionados.
Novas perspectivas apresentadas no ESMO
Durante a sessão plenária, pesquisadores mostraram que a combinação de imunoterapia com outras abordagens está ampliando as opções para mulheres com tumores avançados. Os estudos incluíram tanto ensaios de fase 2 quanto de fase 3, abrangendo diferentes subgrupos de risco. A maioria dos trabalhos focou em pacientes que já haviam falhado em linhas de tratamento convencionais.
Além disso, foram discutidas estratégias que dispensam a quimioterapia tradicional, oferecendo tratamentos menos tóxicos. A oncologista Luciana Landero ressaltou que a personalização terapêutica está se tornando a regra, e não a exceção. Ela enfatizou que a escolha de medicamentos agora depende de marcadores moleculares específicos presentes no tumor.
Imunoterapia como alternativa à quimioterapia
A imunoterapia atua estimulando o sistema imunológico a reconhecer e destruir células cancerígenas. No caso do endométrio, os inibidores de checkpoint como pembrolizumabe e dostarlimabe já mostraram respostas duradouras em alguns pacientes. Esses fármacos bloqueiam proteínas que inibem a ação dos linfócitos T, permitindo que o organismo ataque o tumor.
Os benefícios incluem menor incidência de efeitos colaterais sistêmicos e melhor qualidade de vida durante o tratamento. Contudo, nem todas as pacientes respondem da mesma forma, e a seleção baseada em biomarcadores é crucial. Os principais marcadores avaliados são:
- MSI‑H (instabilidade de microssatélites alta)
- MMR deficientes (deficiência de reparo de mismatch)
- Expressão de PD‑L1
Quando esses fatores estão presentes, a probabilidade de resposta à imunoterapia aumenta significativamente. Em contraste, pacientes sem essas alterações podem precisar de combinações com quimioterapia ou terapias alvo.
Estudo TroFuse‑005 e o sacituzumabe tirumotecana
Um dos destaques foi o ensaio de fase 3 TroFuse‑005, que avaliou o sacituzumabe tirumotecana em mulheres com câncer de endométrio avançado que já haviam recebido quimioterapia e imunoterapia. O medicamento combina um anticorpo direcionado ao antígeno TAC STD‑2 com um agente citotóxico, permitindo entrega seletiva ao tumor.
Os resultados mostraram que a mediana de sobrevida global foi de 19,0 meses no grupo experimental, contra 12,1 meses no braço de tratamento padrão. A sobrevida livre de progressão também aumentou de 3,9 para 7,2 meses. Esses números representam um salto relevante em comparação com terapias convencionais.
Entretanto, a eficácia vem acompanhada de toxicidade. Os eventos adversos mais frequentes foram:
- Estomatite (55% das pacientes)
- Neutropenia (38%)
- Fadiga (34%)
Devido à gravidade de alguns efeitos, 44,5% das pacientes precisaram interromper a dose e 29% tiveram redução de dose. A maioria dos eventos foi manejável com suporte clínico e ajustes de esquema.
A pesquisadora Joyce F. Lui, da Escola de Medicina de Harvard, destacou que “o tratamento melhorou todos os desfechos de eficácia clínica”. Ela também alertou que a toxicidade deve ser monitorada de perto, sobretudo em pacientes fragilizadas.
Impacto no Brasil e futuro da terapia personalizada
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 9.650 novos casos de câncer do corpo do útero anualmente entre 2026 e 2028, ocupando a sexta posição entre os tumores mais incidentes em mulheres. Esse cenário reforça a necessidade de opções terapêuticas mais eficazes e menos agressivas.
A adoção de imunoterapia no país ainda enfrenta barreiras de acesso e custo, mas os resultados do ESMO podem acelerar a inclusão de novos protocolos nos serviços de saúde pública e privada. A personalização baseada em biomarcadores promete reduzir tratamentos desnecessários e otimizar recursos.
Especialistas acreditam que, nos próximos anos, o sacituzumabe tirumotecana poderá ser incorporado como padrão de segunda linha, especialmente para pacientes com progressão após quimioterapia e imunoterapia. Estudos adicionais estão em andamento para avaliar combinações com inibidores de angiogênese e terapias hormonais.
Em resumo, a imunoterapia está redefinindo o panorama do câncer de endométrio, oferecendo esperança a milhares de mulheres que antes tinham poucas alternativas. A continuidade da pesquisa e a ampliação do acesso são fundamentais para transformar esses avanços em benefícios reais para a população.








