Um estudo internacional divulgado no sábado, 24 de outubro, na capital espanhola, revelou que o imunoterápico dostarlimabe eliminou sinais de câncer de reto em grande parte dos pacientes avaliados, sem necessidade de cirurgia, quimioterapia ou radioterapia.
Contexto e importância do achado
O trabalho, apresentado no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), trouxe à tona uma possível mudança de paradigma no tratamento de tumores retais localmente avançados.
Historicamente, pacientes com esse tipo de tumor muitas vezes precisam de cirurgia extensa, que pode resultar em colostomia permanente e comprometimento da qualidade de vida.
Com a nova abordagem, a preservação do órgão e a redução de efeitos colaterais tornam‑se metas realistas.
Detalhes do estudo AZUR‑1
Trata‑se de um ensaio de fase 2 que incluiu 154 participantes diagnosticados com câncer de reto avançado e alterações genéticas específicas, como deficiência no reparo de pareamento do DNA (dMMR) ou alta instabilidade de microssatélites (MSI‑H).
Essas mutações estão presentes em cerca de 5 % a 10 % dos tumores retais, mas são altamente responsivas a imunoterapias.
Os pacientes receberam nove infusões de dostarlimabe ao longo de seis meses, seguidas de avaliações por ressonância magnética, endoscopia e biópsias.
- 154 pacientes inscritos
- 9 infusões em 6 meses
- Avaliações de imagem e tecido ao final
Dos 144 pacientes que completaram o protocolo, 110 (76 %) apresentaram resposta completa, ou seja, nenhum sinal detectável de tumor.
Desses, 98 mantiveram a remissão por pelo menos 12 meses sem precisar de cirurgia.
Os demais 12 tiveram a resposta confirmada após a remoção cirúrgica do tecido, que mostrou ausência de células cancerosas.
Impacto clínico e qualidade de vida
Para os oncologistas, a possibilidade de evitar a colostomia permanente representa um salto qualitativo na vida dos pacientes.
“É uma mudança de paradigma para esse perfil de paciente”, afirmou o especialista Paulo Hoff, que acompanhou os resultados, embora não tenha participado do estudo.
Sem a necessidade de cirurgia, reduzem‑se também os riscos de complicações intestinais, urinárias, sexuais e de infertilidade.
Além disso, a estratégia de “watch and wait” permite monitoramento periódico, mantendo o paciente sob observação cuidadosa ao invés de intervenções invasivas imediatas.
Repercussões regulatórias e perspectivas no Brasil
Em outubro, a Food and Drug Administration (FDA) concedeu aprovação acelerada ao dostarlimabe para adultos com câncer de reto avançado e marcadores dMMR ou MSI‑H.
No Brasil, a farmacêutica GSK enviou o pedido de registro à Anvisa em setembro e aguarda avaliação.
O medicamento já está aprovado no país para tratamento de câncer de endométrio avançado ou recorrente, inclusive em combinação com quimioterapia.
Especialistas ressaltam a necessidade de acompanhamento a longo prazo para confirmar a durabilidade das respostas obtidas.
O professor David Tougeron, que liderou a discussão crítica do estudo na ESMO, alertou que a ausência de um grupo controle limita a interpretação dos dados, mas reconheceu o potencial transformador da terapia.
Se os resultados se mantiverem ao longo dos anos, o dostarlimabe pode se tornar a primeira linha de tratamento para um subgrupo significativo de pacientes com câncer de reto, reduzindo drasticamente a necessidade de intervenções cirúrgicas.
Essa mudança pode também influenciar diretrizes internacionais, estimulando a inclusão de testes genéticos de dMMR e MSI‑H como padrão antes de decidir pela cirurgia.
Em suma, a descoberta abre caminho para uma medicina mais personalizada, onde a escolha do tratamento se baseia no perfil molecular do tumor e não apenas na sua localização anatômica.








