Na madrugada de 13 de julho de 2024, internautas denunciaram que a inteligência artificial da Meta estava gerando imagens de campanha apenas para o candidato Flávio Bolsonaro, do PL, enquanto recusava pedidos semelhantes para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. O fato ocorreu nas plataformas WhatsApp, Instagram e Facebook, pertencentes ao conglomerado americano.
Denúncias nas redes sociais
Os relatos surgiram nas principais redes sociais logo após a divulgação de um suposto teste que mostrava a diferença de tratamento. Usuários afirmaram que, ao digitar comandos como “Flávio 22” ou “Flávio Bolsonaro”, a IA produzia artes eleitorais, mas ao inserir “Luiz Inácio 13” ou “Lula”, a mesma ferramenta permanecia inerte.
Essas denúncias rapidamente ganharam repercussão, sendo compartilhadas por perfis de jornalistas, analistas de tecnologia e ativistas de transparência. Em poucos minutos, o assunto já aparecia em trending topics de Twitter e em grupos de discussão no Telegram.
Testes realizados pela imprensa
A redação da revista VEJA, ao receber as primeiras queixas, decidiu reproduzir os comandos para verificar a veracidade das alegações. Na manhã de 14 de julho, a equipe enviou instruções idênticas para a IA da Meta, solicitando imagens de campanha para ambos os candidatos.
O resultado foi inequívoco: a IA entregou uma arte colorida com o nome “Flávio” e o número “22”, mas não respondeu ao pedido “Luiz Inácio 13”. O teste foi documentado com capturas de tela, que foram incluídas em reportagem publicada no portal da revista.
Para aprofundar a investigação, os jornalistas também testaram variações do comando, usando apenas os sobrenomes “Bolsonaro” e “Lula”. Nessa ocasião, a trava da Meta entrou em ação, bloqueando a geração de qualquer conteúdo, o que indicou que a restrição não era aleatória, mas sim baseada em palavras‑chave específicas.
Resposta da Meta e novas investigações
Ao ser questionada, a equipe de comunicação da Meta afirmou que segue as normas eleitorais brasileiras, que proíbem a recomendação de candidatos ou a criação de imagens que possam influenciar o pleito. Segundo a empresa, medidas temporárias foram adotadas para impedir que a IA gere materiais com o primeiro nome dos políticos e seus números de candidatura.
Entretanto, os novos testes mostraram que a restrição ainda não era aplicada de forma homogênea. Enquanto comandos que continham “Flávio” e “22” continuavam a gerar imagens, solicitações com “Luiz Inácio” e “13” permaneciam bloqueadas. Essa discrepância levantou dúvidas sobre a eficácia dos filtros implementados.
Em resposta ao impasse, a VEJA retomou os experimentos e constatou que, mesmo após a declaração oficial da Meta, a geração de artes para Flávio Bolsonaro persistia. A reportagem enviou um novo pedido de esclarecimento à empresa, mas até o momento da publicação não recebeu retorno.
Repercussões políticas e jurídicas
A coligação liderada por Lula entrou com petição no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alegando que a Meta estaria violando o princípio da igualdade de oportunidades ao favorecer conteúdos do candidato adversário. O documento aponta que perfis ligados à campanha de Flávio Bolsonaro, como o do deputado Nikolas Ferreira (PL‑MG), teriam recebido alcance artificialmente ampliado, superando até mesmo celebridades internacionais.
- Alcance orgânico de postagens de Nikolas Ferreira ultrapassava 20 milhões de visualizações.
- Comparação com Kris Jenner, socialite americana com 50,1 milhões de seguidores, mostrava que suas publicações raramente chegavam a 5 milhões de visualizações.
- Advogados da campanha de Lula, Gean Ferreira e Evelyn Santos, argumentam que a distribuição desigual de conteúdo compromete a lisura do processo eleitoral.
Além da ação judicial, a petição solicita a recomposição em dobro do alcance que a campanha de Lula teria perdido, bem como a adoção de medidas corretivas para garantir que a IA da Meta opere de forma neutra.
Especialistas em direito digital ressaltam que a responsabilidade das plataformas de mídia social vai além da simples disponibilização de ferramentas de IA; elas devem garantir que seus algoritmos não criem viés que possa interferir no resultado de eleições democráticas.
Enquanto isso, a comunidade de desenvolvedores de IA aponta que a filtragem baseada em palavras‑chave pode gerar efeitos colaterais inesperados, como a exclusão de solicitações legítimas ou a manutenção de favorecimentos implícitos. Recomenda‑se a adoção de auditorias independentes para validar a imparcialidade dos sistemas.
O caso também reacendeu o debate sobre a regulamentação de inteligência artificial no Brasil. Projetos de lei em tramitação no Congresso propõem a criação de um órgão regulador que fiscalize a geração de conteúdo automatizado em períodos eleitorais, estabelecendo sanções para empresas que descumpram as normas.
Até o momento, a Meta não divulgou um cronograma para revisão completa de seus filtros nem informou se haverá transparência nos processos internos que determinaram a diferenciação de tratamento entre os candidatos. A sociedade civil continua a pressionar por respostas claras e por uma solução que assegure a igualdade de condições na disputa presidencial.
O desdobramento desse episódio pode definir precedentes importantes para o futuro das campanhas digitais no Brasil, influenciando tanto a forma como partidos e candidatos utilizam a tecnologia quanto a maneira como os órgãos reguladores monitoram a equidade nas plataformas online.








