O ex-chefe das Forças Armadas de Israel, Gadi Eisenkot, tornou‑se o principal rival do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu nas eleições legislativas realizadas nesta terça‑feira, 27 de outubro de 2024, em todo o território israelense. A disputa surge após três anos de guerra na Faixa de Gaza, que marcaram o cenário político e social do país. Eisenkot, à frente do partido Yashar, promete mudar a condução da política nacional e oferecer uma alternativa à polarização que se aprofundou nos últimos anos.
Ascensão política de Eisenkot
Eisenkot nasceu em 1958, filho de imigrantes marroquinos, e foi criado nas cidades costeiras de Tiberíades e Eilat, longe dos centros de poder de Tel‑Aviv. Ingressou na Brigada Golani em 1978, onde iniciou uma carreira militar que duraria mais de quatro décadas, culminando na chefia do Estado‑Maior das Forças de Defesa de Israel entre 2015 e 2019.
Durante seu mandato como chefe do Estado‑Maior, foi nomeado diretamente por Netanyahu, o que gerou uma relação de proximidade entre os dois líderes. Em 2022, Eisenkot fez a transição para a política ao alinhar‑se com o ex‑ministro da Defesa Benny Gantz, conquistando uma cadeira no Knesset, o parlamento israelense.
Após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, Eisenkot e Gantz foram integrados ao gabinete de guerra de Netanyahu, responsável por coordenar a resposta militar ao conflito. No entanto, a aliança durou apenas oito meses; em junho de 2024, Eisenkot rompeu com o governo, passando a criticar publicamente a condução da guerra por Netanyahu.
Em 2025, fundou o partido Yashar – que significa “direto” ou “honesto” em hebraico – posicionando‑se como uma alternativa à extrema‑direita que tem dominado o cenário político. Caso vença, Eisenkot seria o primeiro primeiro‑ministro de origem mizrahi, representando a comunidade judaica do Oriente Médio e Norte da África.
Posicionamento sobre o conflito e propostas
Eisenkot mantém uma postura firme contra o Hamas, defendendo o desmantelamento total da capacidade militar do grupo. Ao mesmo tempo, ele se opõe à criação de um Estado palestino independente e apoia a continuidade dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, apesar das críticas internacionais.
Apesar de alinhado em muitos pontos com a política de segurança de Netanyahu, o ex‑general diferencia‑se ao condenar a violência de colonos contra palestinos e ao rejeitar projetos de expansão territorial promovidos por aliados da extrema‑direita.
Entre as principais propostas de Eisenkot, destacam‑se:
- Comissão independente para investigar as falhas de segurança que permitiram os ataques de outubro de 2023;
- Defesa da independência do Judiciário contra tentativas de politização;
- Redução do custo de vida por meio de políticas fiscais mais equilibradas;
- Fim das amplas isenções militares concedidas aos judeus ultraortodoxos, garantindo maior equidade no serviço de defesa.
Essas medidas visam restaurar a confiança da população nas instituições e oferecer respostas concretas às demandas de segurança e justiça social que surgiram após anos de conflito.
A experiência pessoal de Eisenkot no campo de batalha também influencia seu discurso. Em dezembro de 2023, seu filho mais novo, Gal Meir Eisenkot, morreu durante uma operação em Gaza, e dois sobrinhos foram mortos em combate. Essas perdas reforçam sua narrativa de líder que compartilha o sacrifício da guerra com a população.
Desafios e perspectivas nas urnas
As eleições de 27 de outubro são vistas como um referendo sobre a liderança de Netanyahu, cujo governo tem conduzido Israel em direção a uma agenda cada vez mais ultradireita. Aproximadamente 7,3 milhões de eleitores, incluindo mais de um milhão de jovens que votam pela primeira vez, compareceram às urnas entre 7h00 e 22h00 (horário local).
As pesquisas indicam que a maioria dos eleitores jovens se posiciona no centro‑direita, mas ainda há uma parcela significativa indecisa que pode decidir o rumo da política israelense. O clima de polarização, alimentado pelas guerras em Gaza, Líbano e tensões com o Irã, coloca a segurança como tema central da campanha.
Eisenkot tenta capitalizar seu histórico militar e a dor pessoal vivida durante o conflito para atrair eleitores cansados da continuidade da guerra. Seu discurso combina firmeza contra o Hamas com promessas de reformas internas, como a modernização do Judiciário e a redução das desigualdades econômicas.
Entretanto, ele enfrenta desafios consideráveis: a necessidade de consolidar uma base partidária ainda jovem, a resistência de Netanyahu em aceitar a comissão de investigação proposta e a pressão de grupos ultradireitistas que veem Eisenkot como uma ameaça ao seu modelo de governo.
Se eleito, Eisenkot terá a tarefa de equilibrar a pressão internacional por uma solução diplomática com a exigência interna de segurança robusta. Seu sucesso dependerá da capacidade de articular um plano de paz que não comprometa a segurança de Israel, ao mesmo tempo em que atende às demandas sociais de justiça e igualdade.
Em resumo, a candidatura de Gadi Eisenkot representa uma ruptura significativa no panorama político israelense, oferecendo ao eleitorado uma opção que combina experiência militar, proposta de reformas internas e um discurso que busca unir, em vez de dividir, a sociedade. O resultado das urnas determinará se Israel seguirá na trajetória ultradireita de Netanyahu ou se abrirá caminho para uma nova liderança que promete transparência e responsabilidade.








