O Federal Bureau of Investigation (FBI) realizou uma operação massiva entre os dias 21 e 25 de setembro no estado do Texas, nos Estados Unidos, para fechar supostas fazendas de notebooks usadas por trabalhadores norte-coreanos. As buscas envolveram mais de 40 residências e resultaram na apreensão de aproximadamente 187 dispositivos eletrônicos. A ação foi divulgada publicamente na terça‑feira, 13 de outubro, e tem como objetivo interromper um esquema que financiava o regime de Pyongyang por meio de fraudes trabalhistas.
Operação e apreensões
A equipe de agentes federais executou mandados de busca coordenados, apreendendo notebooks, tablets e acessórios de controle remoto, como softwares que permitem manipular teclado, tela e mouse à distância. Cada residência investigada continha entre duas e dez máquinas, todas conectadas a redes domésticas que simulavam endereços IP americanos. Os dispositivos foram encaminhados para análise forense, onde especialistas confirmaram a presença de credenciais falsas ou roubadas, usadas para obter empregos remotos em empresas norte‑americanas.
Entre os itens confiscados, destacam‑se:
- Notebooks de marcas populares, configurados com sistemas operacionais falsificados.
- Adaptadores de rede que mascaram a origem da conexão.
- Software de acesso remoto (RDP, VNC) instalado sem o conhecimento dos proprietários.
- Dispositivos de armazenamento externo contendo bases de dados de identidades sintéticas.
Os agentes também recolheram documentos que apontavam para a existência de um “hub” logístico, responsável por receber, etiquetar e distribuir os equipamentos para endereços residenciais estratégicos. Esse hub funcionava como uma camada intermediária que dificultava a rastreabilidade das atividades criminosas.
Como funciona a fazenda de notebooks
Os facilitadores, geralmente cidadãos americanos ou residentes legais, recebem os notebooks enviados por empregadores norte‑coreanos e os mantêm ligados 24 horas por dia, conectados à internet. Eles não operam as máquinas diretamente; ao contrário, instalavam softwares de controle remoto que permitem que operadores situados em países como China, Rússia ou mesmo na Coreia do Norte manipulem os dispositivos como se estivessem fisicamente nos EUA.
O recrutamento de trabalhadores vulneráveis segue um roteiro bem definido:
- Identificação de indivíduos em dificuldades financeiras através de anúncios online ou redes de apoio.
- Oferta de “trabalho simples”, como receber pacotes ou manter um computador ligado.
- Pagamento imediato via criptomoedas ou transferências bancárias, sem exigir experiência prévia.
- Instalação de ferramentas de acesso remoto, permitindo que o operador estrangeiro execute tarefas de digitação, suporte técnico ou entrada de dados.
Esse modelo cria uma ilusão de emprego legítimo, enquanto o verdadeiro empregador permanece oculto. O endereço físico da residência funciona como um disfarce, dificultando a identificação do operador real e permitindo que o lucro seja canalizado para contas controladas por agentes do regime norte‑coreano.
Impacto nas empresas americanas
O esquema já afetou mais de 70 companhias entre 2019 e 2025, gerando prejuízos estimados em US$ 3 milhões, equivalentes a cerca de R$ 15,1 milhões. Entre as vítimas, a empresa de segurança cibernética KnowBe4 admitiu ter contratado um funcionário com identidade roubada, cuja foto havia sido manipulada por inteligência artificial. A Amazon, por sua vez, detectou um atraso incomum na digitação de um agente remoto, indicando que o notebook estava fisicamente nos EUA, mas controlado a partir da China.
Os métodos de detecção incluíram a análise de latência de rede, padrões de tráfego anômalos e a comparação de metadados de login. Quando a latência ultrapassou certos limites, equipes de segurança perceberam que o dispositivo estava sendo operado a milhares de quilômetros de distância, desencadeando investigações internas que levaram à descoberta da fazenda de notebooks.
Repercussões legais e sanções
O Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) apresentou uma denúncia detalhada sobre o esquema, apontando que os recursos financeiros obtidos foram direcionados a entidades vinculadas ao governo norte‑coreano, violando sanções internacionais. Embora a operação do FBI não tenha resultado em prisões imediatas, os envolvidos foram advertidos de que poderiam enfrentar acusações criminais caso continuassem a colaborar com as fraudes.
Nos últimos anos, os Estados Unidos já impuseram sanções econômicas a facilitadores e empresas de fachada que serviam como “coberturas” para essas atividades ilícitas. As novas medidas incluem o congelamento de ativos, a proibição de transações financeiras e a revogação de vistos de entrada nos EUA para indivíduos identificados como parte da rede.
Especialistas alertam que, apesar da interrupção de uma das maiores redes identificadas até agora, o modelo de fazenda de notebooks pode ser replicado em outras regiões dos Estados Unidos, especialmente em estados com alto custo de vida e grande número de imigrantes. As autoridades recomendam que empresas reforcem seus processos de verificação de identidade, utilizem autenticação multifatorial e monitorem continuamente padrões de acesso remoto.
Em síntese, a operação do FBI demonstra a complexidade de combater crimes cibernéticos transnacionais que envolvem governos autoritários. A combinação de investigação forense, cooperação internacional e aplicação rigorosa de sanções emerge como a estratégia mais eficaz para impedir que recursos financeiros continuem a sustentar regimes sancionados.








