Na última semana antes da eleição presidencial de 4 de outubro de 2026, uma onda de notícias falsas envolvendo a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, ganhou destaque nas redes sociais e na imprensa internacional. A desinformação circulou rapidamente, alimentando debates acalorados entre eleitores católicos, líderes políticos e representantes da Igreja. O fenômeno trouxe à tona uma nova camada de polarização no cenário eleitoral.
Contexto da desinformação
Segundo reportagem da Bloomberg, a chamada “disputa religiosa” foi impulsionada por postagens que associavam o senador Flávio Bolsonaro a um suposto plano para retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida. As publicações alegavam que, caso eleito, o candidato apoiaria um projeto de lei para mudar a designação oficial da santa.
Entretanto, Flávio Bolsonaro negou publicamente a existência de qualquer iniciativa desse tipo. Não há registro de projeto apresentado por ele que vise retirar o título de padroeira do Brasil.
Para entender a origem da polêmica, é preciso revisitar o Projeto de Lei 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado Victório Galli (Progressistas-MT). O PL tinha como objetivo substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada pela Câmara dos Deputados em 2008, sem avançar para votação final.
- Projeto de Lei 2.623/2007 apresentado em 2007;
- Objetivo: mudar a nomenclatura da padroeira;
- Tramitação encerrada em 2008 com arquivamento;
- Não há vínculo com Flávio Bolsonaro.
Apesar da inexistência de vínculo, a narrativa falsa encontrou terreno fértil nas redes, onde grupos alinhados à esquerda e a perfis conservadores compartilharam a mesma mensagem, criando um ciclo de reforço que dificultou a verificação dos fatos.
Impacto nas pesquisas eleitorais
O efeito da desinformação começou a aparecer nas pesquisas de opinião. Um levantamento realizado pela BTG/Nexus, divulgado em 28 de setembro, mostrou que o apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre eleitores católicos subiu de 44% para 47% em apenas uma semana. Simultaneamente, a intenção de voto para Flávio Bolsonaro (PL) caiu de 34% para 33% nesse mesmo segmento.
Esses números sugerem que a narrativa de que o senador estaria contra a padroeira pode ter gerado um efeito de mobilização entre o eleitorado católico, tradicionalmente mais conservador. A pesquisa do agregador da BBC News Brasil apontou Lula com 41% de intenção de voto no primeiro turno, enquanto Flávio aparece com 36%.
Nas simulações de segundo turno, que atualmente projetam um embate direto entre Lula e Flávio, o petista lidera com 45% contra 44% para o senador. Caso o segundo turno ocorra, a votação está prevista para 25 de outubro.
Reações de candidatos e instituições
Lula aproveitou a oportunidade para reforçar seu compromisso com a fé católica, destacando que a Constituição garante a liberdade religiosa e que a padroeira permanece como símbolo de união nacional. Em discurso recente, o presidente afirmou que “qualquer tentativa de usar a religião para dividir o país será rejeitada”.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, reiterou que nunca apresentou projeto algum para mudar a designação de Nossa Senhora Aparecida. O senador acusou adversários de manipular a fé dos brasileiros para ganhar vantagem eleitoral, classificando a campanha como “desinformação perigosa”.
A Igreja Católica respondeu com cautela. Lideranças da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) pediram que a questão fosse tratada com respeito ao sentimento dos fiéis, ressaltando que a padroeira é um elemento de identidade cultural e espiritual.
O Supremo Tribunal Federal (STF) também entrou no debate, lembrando que a Constituição Federal protege a livre manifestação de crença e que eventuais mudanças legislativas sobre símbolos religiosos devem respeitar o princípio da laicidade do Estado.
As autoridades eleitorais, que já haviam removido centenas de publicações falsas nas eleições de 2022, intensificaram a fiscalização. Em comunicado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) alertou que a disseminação de notícias falsas pode configurar crime eleitoral, sujeitando os responsáveis a penalidades previstas na Lei nº 9.504/1997.
Como a desinformação se espalhou
A estrutura de propagação das fake news seguiu um padrão típico das campanhas digitais: um conteúdo sensacionalista é criado, compartilhado por perfis com grande número de seguidores e, em seguida, amplificado por bots e grupos organizados. O ciclo inclui:
- Criação de postagem com título chamativo;
- Distribuição inicial por contas influentes;
- Repostagens em grupos de WhatsApp e Telegram;
- Amplificação por bots que geram engajamento artificial;
- Cobertura de veículos de mídia que citam a controvérsia sem verificação.
Esse modelo foi identificado pelos analistas da Bloomberg, que ressaltaram que a desinformação já se tornou “uma característica recorrente das eleições brasileiras”. A agência citou ainda que, em 2022, o TSE precisou remover dezenas de publicações falsas, e que o cenário de 2026 apresenta risco ainda maior devido ao aumento do uso de inteligência artificial na produção de conteúdo enganoso.
Especialistas em comunicação política apontam que a combinação de temas religiosos com disputas eleitorais cria um gatilho emocional forte, capaz de influenciar decisivamente a opinião pública. Quando a fé é usada como arma política, a reação dos eleitores tende a ser mais visceral, o que explica o salto de apoio ao candidato que se posiciona como defensor da tradição religiosa.
Em resposta, organizações da sociedade civil lançaram campanhas de checagem de fatos. A Agência Lupa e o Projeto Comprova divulgaram artigos detalhando a origem do Projeto de Lei 2.623/2007 e desmentindo a suposta ligação de Flávio Bolsonaro com a iniciativa. Essas ações buscaram reduzir o impacto da narrativa falsa antes que ela se consolidasse.
Perspectivas para o futuro da eleição
Com a data do primeiro turno se aproximando, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro permanece apertada. A influência da controvérsia religiosa pode ser decisiva em estados com alta concentração de eleitores católicos, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.
Analistas preveem que, se a desinformação continuar sem controle, o clima de polarização poderá se intensificar, gerando maior risco de violência política e protestos nas urnas. Por outro lado, uma resposta coordenada das instituições, combinada com campanhas de educação midiática, tem o potencial de mitigar os efeitos das fake news.
Em resumo, a batalha sobre a padroeira do Brasil demonstra como temas culturais e religiosos podem ser instrumentalizados em campanhas eleitorais modernas. O desfecho da disputa dependerá não apenas da capacidade dos candidatos de convencer o eleitor, mas também da eficácia das autoridades em coibir a propagação de informações falsas.








