Um novo exame de sangue, aprovado pela Anvisa, começou a ser oferecido em hospitais brasileiros a partir de 2024, visando identificar marcadores biológicos associados ao Alzheimer. O teste, desenvolvido por empresa internacional e introduzido no país, permite que pacientes com suspeita de comprometimento cognitivo façam a coleta em clínicas de rotina. A iniciativa está concentrada inicialmente em centros de referência como o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.
Como funciona o exame de pTau217
O método analisa a presença da proteína tau fosforilada na forma pTau217, que aumenta no sangue quando placas amiloides se acumulam no cérebro. A coleta requer apenas uma punção venosa, semelhante a exames de rotina, e o material é processado em laboratórios equipados com a tecnologia Elecsys.
Segundo o neurocientista Eduardo Zimmer, responsável pela pesquisa no Hospital Moinhos de Vento, o teste apresenta mais de 90% de sensibilidade para detectar a patologia subjacente ao Alzheimer, embora não mensure a gravidade da demência já instalada.
Os resultados são entregues em até cinco dias úteis, permitindo que o médico combine o dado com avaliação clínica e outros exames complementares.
Benefícios para pacientes e familiares
O exame oferece três vantagens principais:
- Não invasivo: substitui a necessidade de punção lombar em muitos casos.
- Rapidez: diagnóstico em poucos dias acelera a decisão terapêutica.
- Custos reduzidos: o preço estimado de R$3.000 é inferior ao de exames de imagem ou de liquor.
Essas características facilitam o início precoce de intervenções farmacológicas e de cuidados não‑medicamentosos, o que pode retardar a progressão dos sintomas e melhorar a qualidade de vida.
A geriatra Claudia Suemoto, da USP, destaca que a combinação de biomarcadores sanguíneos com avaliações neuropsicológicas pode reduzir o tempo de espera para diagnóstico de anos para meses.
Limitações e cuidados na interpretação
Apesar da alta precisão, o exame não deve ser usado como triagem populacional. Ele é indicado apenas para indivíduos a partir dos 50 anos que apresentam sinais de comprometimento cognitivo leve ou demência suspeita.
O neurologista Adalberto Studart Neto alerta que a presença de biomarcadores positivos em pessoas assintomáticas não garante o desenvolvimento futuro da doença, pois ainda não há tratamento aprovado para a fase pré‑clínica.
Além disso, com o avançar da idade, outras condições – como depressão, deficiência de vitaminas ou doenças vasculares – podem coexistir e interferir nos resultados cognitivos.
Portanto, o exame deve ser interpretado como parte de um conjunto de evidências, e não como diagnóstico definitivo isolado.
Comparação com exames tradicionais
A punção lombar, que coleta o líquido cefalorraquidiano, continua sendo o padrão ouro para detectar tau e beta‑amilóide no cérebro, mas tem custo superior a R$4.000 e requer ambiente hospitalar especializado.
O PET‑CT com radiotraçador amiloide oferece visualização direta das placas cerebrais, porém custa entre R$10.000 e R$12.000 e exige equipamento de imagem de alta complexidade.
Em contraste, o exame de sangue pode ser realizado em clínicas de atenção básica, ampliando o acesso a regiões onde a infraestrutura de imagem ou de coleta de liquor é limitada.
Essa democratização pode reduzir disparidades regionais no diagnóstico de Alzheimer, especialmente nas áreas Norte e Nordeste, onde a oferta de exames avançados é escassa.
Perspectivas futuras e acesso ampliado
Com a aprovação regulatória, espera‑se que outras empresas licenciem a tecnologia e que o preço do teste diminua gradualmente. A inclusão do exame nos planos de saúde privados já está em negociação, e há discussões para que o SUS incorpore o teste em protocolos de avaliação cognitiva.
Especialistas acreditam que, ao combinar o exame de pTau217 com estratégias de prevenção – como controle de hipertensão, atividade física e estímulo cognitivo – será possível reduzir o número de casos avançados de Alzheimer nos próximos anos.
Projeções indicam que, se a taxa de diagnóstico precoce aumentar em 30%, o número de pacientes que evoluem para demência grave pode ser reduzido em até 15% até 2035, gerando economia significativa para o sistema de saúde.
O futuro da pesquisa aponta ainda para a criação de testes de sangue que detectem outras formas de tau e biomarcadores de inflamação, ampliando o leque de ferramentas para um diagnóstico ainda mais preciso.
Enquanto isso, médicos, pacientes e familiares são encorajados a buscar avaliação especializada ao notar alterações de memória, raciocínio ou orientação, pois a intervenção precoce continua sendo a estratégia mais eficaz contra a progressão do Alzheimer.








