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Estudo sugere que os animais surgiram até 200 milhões de anos antes do que se pensava

Pesquisadores anunciaram que o reino animal pode ter nascido entre 800 e 700 milhões de anos atrás, muito antes do Cambriano. A descoberta foi feita ao analisar microfósseis da Mongólia e ao aplicar o método de relógio molecular. O estudo, publicado na revista Science Advances, redefine um dos maiores mistérios da biologia evolutiva.

Descobertas recentes na Mongólia

Um grupo internacional examinou mais de uma centena de amostras da biota de Kheseen, um depósito fossilífero neoproterozoico localizado na Mongólia. Apesar da qualidade excepcional de preservação, nenhum animal foi identificado nos fósseis, embora registros de regiões como o sul da China e a Namíbia provem a presença de animais naquele mesmo intervalo de tempo. O pesquisador Ross Anderson destacou que a ausência de animais em Kheseen “refuta o argumento de que microfósseis excepcionais de Weng’an garantiriam a detecção de animais caso eles existissem”.

Os microfósseis encontrados são organismos microscópicos de corpo mole, que raramente deixam vestígios fósseis duradouros. A preservação em Kheseen, porém, é tão detalhada quanto a de Weng’an, um sítio chinês de 590 milhões de anos que já era referência para o estudo da vida multicelular.

Reavaliação dos limites temporais da origem animal

Com a falta de evidência animal em Kheseen, os cientistas buscaram depósitos ainda mais antigos, datados entre 850 e 730 milhões de anos, localizados na Noruega, Austrália e Arizona (EUA). Embora esses sítios também não contenham fósseis de animais, a composição química das rochas indica que, se animais estivessem presentes, teriam sido preservados. Essa observação permitiu aos pesquisadores aplicar o relógio molecular, que correlaciona diferenças genéticas entre espécies atuais com a idade dos fósseis para estimar a data de divergência dos ancestrais comuns.

O cálculo molecular apontou um recuo de aproximadamente 200 milhões de anos na estimativa da origem dos animais. Assim, o surgimento do reino animal seria situado entre 800 e 700 milhões de anos atrás, bem antes dos primeiros fósseis corporais confirmados do Cambriano.

Implicações para a evolução e o clima da Terra

Essa nova linha do tempo coincide com a presença de biomarcadores químicos em rochas antigas, interpretados como possíveis vestígios de esponjas primitivas que viveram há pelo menos 650 milhões de anos. Esses organismos eram diminutos, de corpo mole e, portanto, tinham baixa probabilidade de fossilização, o que explica a escassez de fósseis corporais.

Além disso, situar a origem dos animais entre 800 e 700 milhões de anos implica que os estágios iniciais de sua evolução ocorreram durante as intensas glaciações globais do Neoproterozoico. Esse cenário sugere que a vida animal pode ter se desenvolvido em ambientes marinhos protegidos, possivelmente associados a zonas de água quente ou a habitats de alta produtividade química.

  • Biota de Weng’an (China) – 590 Ma, referência tradicional.
  • Biota de Kheseen (Mongólia) – 550 Ma, ausência de animais.
  • Depósitos da Noruega, Austrália e Arizona – 850‑730 Ma, usados para relógio molecular.

A revisão dos limites temporais também afeta a compreensão da evolução de grupos posteriores, como artrópodes e vertebrados, que podem ter raízes mais profundas do que se acreditava. A descoberta abre novas perguntas sobre como a vida animal sobreviveu às condições climáticas extremas e quais estratégias biológicas permitiram sua persistência e diversificação posterior.

Em síntese, o estudo demonstra que a ausência de fósseis em sítios bem preservados não é prova conclusiva de inexistência, mas pode refletir limitações de fossilização ou habitats ainda não amostrados. Essa perspectiva reforça a importância de combinar evidências paleontológicas com técnicas moleculares para reconstruir a história profunda da vida na Terra.

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