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Espanha libera 1,5 milhão de mosquitos machos modificados para combater dengue e chikungunya

A Agência de Saúde Pública de Barcelona soltou, na última semana de junho de 2024, mais de 1,5 milhão de mosquitos machos do tipo Aedes albopictus na capital espanhola. O objetivo é reduzir a transmissão de dengue e chikungunya usando a bactéria Wolbachia, que impede a multiplicação dos vírus dentro do inseto.

Como funciona a técnica Wolbachia

Quando um mosquito macho carregado com Wolbachia acasala com uma fêmea que não possui a bactéria, ocorre incompatibilidade reprodutiva. Os ovos fertilizados não eclodem, interrompendo a geração de novos mosquitos vetores.

Se ambos os parceiros já estiverem infectados, a bactéria é transmitida aos descendentes, que também se tornam portadores. Assim, ao longo de várias gerações, a proporção de mosquitos capazes de transmitir dengue diminui de forma progressiva.

A Wolbachia é uma bactéria natural presente em cerca de metade das espécies de insetos, mas ausente no Aedes aegypti, principal transmissor da dengue no Brasil. Por isso, sua introdução cria um mecanismo biológico de controle sem necessidade de pesticidas químicos.

  • Incompatibilidade reprodutiva reduz a população de mosquitos.
  • Transmissão vertical garante a persistência da bactéria nas gerações futuras.
  • Redução efetiva dos vírus dentro do vetor.

Implementação em Barcelona e metas futuras

A operação de Barcelona foi a primeira em escala urbana na Europa. A estratégia prevê a liberação de 80 mil machos infectados por semana, distribuídos em pontos estratégicos da cidade para maximizar a cobertura.

Os machos são criados em laboratórios controlados, onde recebem a cepa específica de Wolbachia. Após a maturação, são transportados em caixas climatizadas até os locais de soltura, onde são liberados ao entardecer, horário de maior atividade dos mosquitos.

Até o momento, a campanha já cobriu 30 bairros, atingindo cerca de 15% da população urbana. Os primeiros indicadores apontam uma queda de 25% nos casos suspeitos de dengue nas áreas monitoradas.

Os planejadores pretendem ampliar a ação para outras cidades espanholas, como Valência e Sevilha, caso os resultados continuem positivos. A meta de longo prazo é substituir, gradualmente, a população de Aedes albopictus por uma população majoritariamente portadora de Wolbachia.

Resultados e perspectivas no Brasil

No Brasil, o método Wolbachia tem sido testado pela Fiocruz desde 2014, com experimentos em Niterói, Campo Grande e, mais recentemente, em Campinas. Em Niterói, a incidência de dengue caiu cerca de 70% após três anos de monitoramento.

Em Campo Grande, a redução foi de 63% para a dengue e 60% para chikungunya nas áreas onde a prevalência de Wolbachia ultrapassou 80% nos mosquitos capturados. Esses números reforçam a eficácia da técnica em ambientes tropicais, onde a transmissão de arboviroses é mais intensa.

Campinas foi escolhida pelo Ministério da Saúde para iniciar novos experimentos em 2027, com foco em integração de dados de vigilância epidemiológica e controle de vetores. A expectativa é que a experiência espanhola sirva de modelo para otimizar a logística de liberação em grandes cidades brasileiras.

Além da redução de casos, a estratégia também diminui a necessidade de aplicação de inseticidas, trazendo benefícios ambientais e econômicos. O custo por mosquito liberado é estimado em torno de 0,10 USD, muito inferior ao gasto anual com campanhas químicas em áreas de alta endemicidade.

Desafios e críticas à liberação de mosquitos

Apesar dos resultados promissores, a iniciativa enfrenta resistência de alguns setores da sociedade. Grupos ambientalistas temem que a introdução de uma bactéria, ainda que natural, possa gerar desequilíbrios ecológicos inesperados.

Pesquisadores apontam que a eficácia depende da manutenção de altas taxas de Wolbachia na população de mosquitos. Se houver migração de mosquitos não infectados de áreas vizinhas, a proporção pode cair, reduzindo o impacto da estratégia.

Outro ponto de atenção é a necessidade de monitoramento constante. Laboratórios precisam coletar amostras de mosquitos em armadilhas e analisar a presença da bactéria, o que exige recursos humanos e financeiros continuados.

Para mitigar esses riscos, as autoridades espanholas estabeleceram protocolos rigorosos de avaliação de impacto ambiental e de comunicação transparente com a população. Campanhas de esclarecimento nas escolas e meios de comunicação ajudam a construir confiança e a explicar que os machos liberados não picam e não transmitem doenças.

Em síntese, a liberação de mosquitos machos infectados com Wolbachia representa uma ferramenta inovadora no arsenal de combate às arboviroses. Se bem monitorada e combinada com medidas tradicionais, como eliminação de criadouros, pode transformar a forma como cidades ao redor do mundo enfrentam a dengue, a chikungunya e a zika.

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