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Escavação na Sibéria revela uso milenar da cannabis em túmulo cita de 2.800 anos

Arqueólogos descobriram, no Vale de Uyuk, na República de Tuva, na Rússia, vestígios da planta cannabis datados de cerca de 2.800 anos atrás. O achado foi feito dentro de um túmulo monumental da antiga cultura cita, localizado no sul da Sibéria. A descoberta aponta para o uso psicoativo da maconha muito antes de registros históricos conhecidos no Oriente Médio.

Contexto arqueológico e cultural

O túmulo estudado possui um diâmetro aproximado de 140 metros e foi construído com troncos de lariço, argila e milhares de toneladas de pedra. Essa estrutura funerária serviu como local de sepultamento para membros da elite cita, conhecidos por sua habilidade em guerra a cavalo e pela produção de arte em ouro e bronze. Os citas eram um povo nômade que habitava as estepes eurasiáticas, mantendo intensas trocas comerciais com civilizações vizinhas, como a Grécia antiga.

Durante a escavação, os pesquisadores encontraram artefatos característicos do “estilo animal cita”, que apresentam representações de bestas fantásticas e símbolos de poder. Além das peças de ouro, foram recuperados mais de 1.400 sementes de cannabis, dispostas entre os objetos funerários. A presença desses elementos indica que o ritual funerário incluía práticas complexas, possivelmente relacionadas à comunicação com o mundo dos mortos.

  • Diâmetro da estrutura: ~140 metros
  • Materiais de construção: troncos de lariço, argila, pedras
  • Itens encontrados: ouro, bronze, sementes de cannabis, cabelos humanos
  • Datação: início do século 8 a.C. (cerca de 2.800 anos)

Os relatos de Heródoto, escritos no século V a.C., já descreviam rituais de “cavalgada espectral” praticados pelos citas, mas até então faltavam evidências materiais que confirmassem tais práticas. A descoberta de cannabis dentro do túmulo oferece um suporte físico a essas narrativas antigas, reforçando a ideia de que a planta tinha um papel central nos rituais de poder e sacrifício.

Evidências químicas da cannabis

Os cabelos humanos encontrados na câmara central foram submetidos a análises químicas avançadas, que revelaram a presença de THC, o principal composto psicoativo da cannabis, além de canabinol, um metabólito relacionado. Essas assinaturas químicas são consistentes com o consumo da planta para fins alteradores de consciência. Embora a forma exata de ingestão não possa ser determinada apenas a partir dos cabelos, os especialistas sugerem que a inalação, possivelmente por meio de fumaça, era a prática mais provável.

A datação por radiocarbono das sementes confirmou que elas pertencem ao mesmo período do túmulo, reforçando a associação direta entre os indivíduos sepultados e o uso da planta. Essa é a evidência direta mais antiga conhecida de consumo psicoativo da cannabis, ultrapassando registros anteriores que datavam do primeiro milênio a.C. e que eram baseados apenas em artefatos como fornos ou fragmentos de cerâmica.

Além das análises químicas, os pesquisadores observaram marcas físicas nas tranças de cabelo que correspondem à absorção de substâncias oleosas, um indício de que os cabelos foram expostos à fumaça ou a óleos derivados da planta. Essa combinação de evidência química e física fortalece a interpretação de que a cannabis fazia parte de um ritual de transe ou de comunicação espiritual.

Implicações para a história do uso psicoativo

A descoberta tem repercussões importantes para a compreensão da história da cannabis. Ela demonstra que, muito antes de registros escritos no Oriente Médio, povos nômades da Eurásia já exploravam os efeitos psicotrópicos da planta. Isso amplia o mapa geográfico e cronológico do uso da maconha, indicando que seu papel ritualístico era mais difundido do que se acreditava.

O fato de a cannabis ter sido encontrada em um contexto funerário sugere que seu consumo estava ligado a práticas de passagem para o além, possivelmente para facilitar a comunicação entre os vivos e os mortos. Essa interpretação está em linha com outras descobertas arqueológicas que associam substâncias alucinógenas a rituais de transe em diferentes culturas antigas.

Além do aspecto ritual, a presença de sementes indica que a planta também era cultivada para fins alimentares ou de produção de fibras. A cannabis tem sido historicamente valorizada por sua versatilidade, e os citas podem ter aproveitado tanto seus componentes psicoativos quanto seus usos práticos.

Os resultados do estudo abrem novas perguntas sobre a extensão das rotas de troca entre os citas e outras civilizações contemporâneas. Se a cannabis era conhecida e valorizada pelos citas, é plausível que ela tenha sido transmitida ao longo das rotas da seda, influenciando culturas posteriores na Ásia Central e no Oriente Médio.

Em síntese, a escavação no Vale de Uyuk redefine a cronologia do consumo humano de cannabis, posicionando a Sibéria como um dos primeiros centros de uso psicoativo da planta. O achado reforça a necessidade de revisitar narrativas históricas que, até então, subestimavam a complexidade das práticas ritualísticas de povos nômades.

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