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Economista André Lara Rezende nega contato com Lula e afirma que proposta de novo órgão fiscal foi manipulada

O economista André Lara Rezende afirmou, nesta quarta‑feira (28 de outubro), que nunca conversou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que a sua proposta de criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional foi usada como arma política para desestabilizar quem a defendeu. A declaração foi feita em entrevista à BBC News Brasil, logo após a divulgação de um artigo seu publicado em setembro na plataforma Substack. O episódio reacendeu o debate sobre a alta taxa básica de juros no país e a necessidade de coordenar política fiscal e monetária.

Contexto da proposta e origem da polêmica

Em setembro, Lara Rezende enviou aos assinantes da sua newsletter uma análise detalhada sobre o déficit fiscal de 0,48% do PIB em 2025, apontando que o principal entrave da economia era a taxa Selic, que permanecia em 13,75% ao ano. Ele sugeriu a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN) para alinhar metas de longo prazo entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda.

A proposta surgiu em um momento de intensa pressão sobre o governo Lula, que tem sido criticado por manter juros elevados apesar de um cenário de recuperação econômica. A ideia de um órgão conjunto foi vista por alguns como uma solução para “coordenar expectativas” e reduzir a Selic de forma planejada, ao invés de depender apenas de decisões isoladas do Copom.

A divulgação ganhou destaque quando a deputada federal Gleisi Hoffmann compartilhou o artigo nas redes sociais, rotulando‑o como essencial para enfrentar a “ofensiva terrorista” contra a política fiscal brasileira. A partir daí, o texto passou a circular amplamente entre analistas, investidores e comentaristas políticos.

Reações no mercado e na esfera política

Logo após a divulgação, investidores começaram a especular sobre a possibilidade de André Lara Rezende ser convidado para integrar o futuro Ministério da Fazenda. Boatos de que o presidente Lula estaria considerando nomes para o cargo alimentaram ainda mais a discussão.

Ao mesmo tempo, setores do mercado financeiro e da oposição ao governo passaram a criticar a proposta, argumentando que ela poderia enfraquecer a autonomia do Banco Central. Segundo esses críticos, o CFMN poderia ser usado como instrumento para pressionar a queda da Selic, sem o devido rigor técnico.

Para ilustrar as principais críticas, segue um resumo em lista:

  • Risco de interferência política nas decisões monetárias;
  • Possível enfraquecimento da credibilidade do Banco Central;
  • Incerteza sobre a efetividade do conselho sem poderes legislativos claros;
  • Preocupação de que a redução da taxa de juros seja feita de forma abrupta, gerando volatilidade.

Em contraponto, o próprio Lara Rezende destacou que o CFMN seria um órgão consultivo, sem poder de decisão sobre a política monetária, mas com a missão de alinhar metas fiscais ao horizonte de juros de longo prazo. Ele ainda citou o economista americano John Cochrane, da Hoover Institution, que descreveu a proposta como “sofisticada”, embora ainda muito teórica.

Desafios para a implementação e próximos passos

Para que o Conselho Fiscal e Monetário Nacional venha a existir, será necessário aprovação no Congresso Nacional. O Banco Central, por sua vez, não tem autonomia para criar conselhos próprios, apenas comitês consultivos, o que implica em uma mudança legislativa significativa.

Além da aprovação parlamentar, a proposta enfrenta o obstáculo de conciliar diferentes interesses dentro do governo. O Ministério da Fazenda, o próprio Banco Central e o Executivo precisarão chegar a um acordo sobre a estrutura, composição e poderes do novo órgão.

Outro ponto crucial é a comunicação ao mercado. Uma transição bem‑sucedida exigiria clareza sobre como o CFMN influenciaria a trajetória da Selic, evitando surpresas que possam desestabilizar a confiança dos investidores.

Por fim, Lara Rezende reforçou que a sua intenção nunca foi “queimar” ninguém, mas sim abrir espaço para um debate técnico sobre como escapar da armadilha dos juros altos. Ele descreveu sua inserção no debate como “Judas no Pai Nosso”, indicando que se sentiu usado como alvo em uma disputa interna do governo.

Com a Selic mantida em 13,75% ao ano, o país continua em busca de mecanismos que permitam reduzir o custo do crédito sem comprometer a estabilidade macroeconômica. A proposta do Conselho Fiscal e Monetário Nacional permanece, portanto, como uma das muitas ideias em discussão para o futuro da política econômica brasileira.

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