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Entender a diferença como valor: a urgência de combater o preconceito

Em 15 de junho de 2026, o renomado psiquiatra e psicoterapeuta Bernardo Rahe subiu ao palco do congresso Neuro 2026, realizado em São Paulo, para discutir a importância de tratar a diferença como um valor e não como um custo. A palestra, que reuniu profissionais da saúde, ativistas e estudantes, abordou como o preconceito gera estresse crônico e afeta diretamente a estrutura cerebral das pessoas marginalizadas.

O impacto do preconceito na saúde mental

Rahe explicou que o estresse prolongado, provocado por situações de discriminação, ativa respostas neurobiológicas que podem levar a quadros de ansiedade, depressão e até transtornos mais graves. Quando a diferença encontra o preconceito, o cérebro entra em estado de alerta constante, dificultando a regulação emocional.

Ele destacou que o mecanismo de resposta ao estresse envolve a liberação excessiva de cortisol, hormônio que, em níveis elevados, compromete a memória e a capacidade de aprendizagem. Além disso, a exposição contínua ao medo de rejeição social pode desencadear alterações nas áreas responsáveis pelo prazer e motivação, como o núcleo accumbens.

Para ilustrar esses efeitos, o especialista apresentou um lista de consequências neuropsicológicas observadas em indivíduos que vivenciam preconceito diário:

  • Redução da massa cinzenta em regiões pré-frontais;
  • Hiperatividade da amígdala, responsável por respostas de medo;
  • Diminuição da conectividade entre o hipocampo e o córtex;
  • Alterações nos padrões de sono, que agravam o cansaço mental;
  • Maior vulnerabilidade a transtornos de humor.

Esses dados reforçam a necessidade de políticas públicas que promovam ambientes seguros e acolhedores, reduzindo a carga de estresse tóxico que afeta milhares de brasileiros.

Dados alarmantes sobre TEA e disforia de gênero

Um dos pontos mais marcantes da palestra foi a comparação entre a prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na população geral e entre pessoas que buscam tratamento para disforia ou incongruência de gênero. Enquanto o TEA atinge de 1% a 2% da população, entre os atendidos por questões de gênero esse número salta para impressionantes 11%.

Essas estatísticas apontam para uma interseção complexa entre neurodiversidade e identidade de gênero, que exige atenção especializada. Rahe enfatizou que a falta de reconhecimento e o estigma associado podem intensificar o sofrimento, criando um ciclo vicioso de exclusão e deterioração da saúde mental.

Ele também ressaltou que a maioria desses indivíduos enfrenta barreiras no acesso a serviços de saúde adequados, muitas vezes encontrando profissionais despreparados para lidar com a dupla vulnerabilidade. A ausência de protocolos claros e de formação continuada para os profissionais de saúde agrava a situação.

Caminhos para a inclusão e redução do estresse

Para romper esse quadro, o psiquiatra propôs uma série de ações que podem ser implementadas tanto em ambientes clínicos quanto em instituições educacionais e corporativas. Entre as recomendações, destacam-se:

  1. Capacitação de profissionais de saúde para reconhecer e tratar a interseção entre TEA e identidade de gênero;
  2. Criação de espaços seguros onde pessoas trans e neurodivergentes possam compartilhar experiências sem medo de julgamento;
  3. Desenvolvimento de campanhas de conscientização que enfatizem a diferença como valor cultural e social;
  4. Implementação de políticas de apoio, como acompanhamento psicológico gratuito e linhas de apoio 24 horas;
  5. Incorporação de práticas de mindfulness e técnicas de regulação emocional nos programas de tratamento.

Rahe destacou ainda a importância de envolver a família no processo de acolhimento. Quando o núcleo familiar oferece suporte e validação, o impacto do estresse diminui significativamente, favorecendo a resiliência do indivíduo.

Outro ponto crucial é a necessidade de pesquisas continuadas que explorem a relação entre preconceito, estresse e alterações neurológicas. Dados robustos permitem a criação de intervenções mais precisas e a avaliação de políticas públicas de forma objetiva.

Por fim, o especialista concluiu que a mudança cultural depende da participação ativa de toda a sociedade. Cada pessoa, ao reconhecer que a diferença traz consigo habilidades únicas e perspectivas enriquecedoras, contribui para a construção de um ambiente mais saudável e produtivo.

Ao transformar o preconceito em oportunidade de aprendizado, abre‑se caminho para uma sociedade que celebra a diversidade e protege a saúde mental de todos os seus membros.

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