Na última terça‑feira, durante o congresso Neuro 2026, a psicóloga e escritora Ana Luiza Novis apresentou uma palestra sobre o burnout feminino, destacando suas causas e consequências. O evento, realizado em São Paulo, reuniu especialistas em neurociência, saúde pública e políticas de trabalho. Ela explicou que o esgotamento não se limita ao ambiente corporativo, mas se estende a toda a vida da mulher.
Sobrecarga antes da jornada de trabalho
O primeiro ponto abordado foi a carga mental que as mulheres carregam antes mesmo de iniciar o expediente. Tarefas domésticas, cuidados com filhos, pais idosos ou com necessidades especiais compõem uma agenda que já está sobrecarregada ao nascer o dia.
Essa pressão constante impede que a profissional tenha tempo de descanso adequado, prejudicando a qualidade do sono e a capacidade de concentração. Estudos recentes apontam que a falta de pausas regulares eleva significativamente os níveis de cortisol, hormônio do estresse.
Além disso, a expectativa cultural de que a mulher seja a principal responsável pelo bem‑estar da família cria um ciclo de culpa quando ela não consegue atender a todas as demandas simultaneamente.
Desafios institucionais e falta de apoio
No ambiente organizacional, a estrutura ainda foi concebida para um trabalhador sem responsabilidades de cuidado. Políticas de horário rígido, metas agressivas e avaliação baseada apenas em produtividade ignoram a realidade da maioria das colaboradoras.
Empresas que não oferecem creches, salas de amamentação ou flexibilidade de horário acabam forçando a funcionária a escolher entre a carreira e a família. Essa escolha impossível gera ansiedade, depressão e, em último caso, burnout.
Outro ponto crítico é a ausência de treinamento de lideranças para reconhecer sinais de esgotamento. Gestores que desconhecem a diferença entre cansaço temporário e síndrome de burnout podem, inconscientemente, aumentar a pressão sobre a equipe.
Implicações políticas e caminhos para a prevenção
A solução passa, inevitavelmente, por intervenções de políticas públicas. Quando o Estado garante creches acessíveis, licença parental compartilhada e igualdade salarial, reduz‑se a sobrecarga que recai sobre as mulheres.
Além disso, a criação de ambientes de trabalho psicologicamente seguros, com canais de apoio psicológico e combate ao assédio, diminui a vulnerabilidade ao esgotamento.
Programas de incentivo à saúde mental nas empresas, como sessões de mindfulness, coaching e acompanhamento médico, também são fundamentais para a prevenção.
Relação com a saúde cerebral e demência
O burnout prolongado tem repercussões diretas no cérebro feminino. O estresse crônico afeta áreas responsáveis pela memória, aprendizado e regulação emocional, aumentando o risco de doenças neurodegenerativas.
É importante lembrar que dois terços das pessoas diagnosticadas com Doença de Alzheimer são mulheres. Fatores de risco modificáveis podem reduzir até 59,5% dos casos no Brasil.
A seguir, listamos os fatores de risco que, quando controlados, têm potencial de prevenir quase metade dos casos de demência:
- Nível de escolaridade elevado
- Depressão não tratada
- Estilo de vida sedentário
- Hipertensão arterial
- Diabetes mellitus
- Obesidade
- Perda de audição
- Lesões traumáticas no cérebro
- Colesterol LDL alto
- Tabagismo
- Consumo excessivo de álcool
- Perda de visão
- Poluição atmosférica
- Isolamento social
Ao agir sobre esses itens – por meio de políticas de prevenção, campanhas de conscientização e acesso a serviços de saúde – é possível criar um ambiente que favoreça a saúde mental e física das mulheres, diminuindo a incidência de burnout e suas consequências neurológicas.
Em resumo, o combate ao esgotamento feminino requer uma abordagem integrada que vá além da empresa, envolvendo família, sociedade e governo. Somente assim será possível garantir que as mulheres tenham condições de viver e trabalhar com qualidade, reduzindo impactos negativos no cérebro e na saúde ao longo da vida.








