Na terça‑feira, 27 de outubro de 2023, os eleitores israelenses foram às urnas para decidir o destino do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu e o rumo do país. A votação ocorre em todo o território israelense, incluindo Judeia e Samaria, e representa um referendo sobre a liderança que há oito anos domina a política nacional. O resultado determinará quem conduzirá Israel nos próximos quatro anos, em meio a crises militares, diplomáticas e institucionais.
O julgamento de Netanyahu nas urnas
Benjamin Netanyahu, com 77 anos, tenta assegurar um quinto mandato em um cenário marcado por acusações de corrupção, um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional e a polêmica reforma judicial que divide a sociedade. Seu governo adotou uma postura nacionalista e religiosa, contando com o apoio de partidos de extrema‑direita e ultraortodoxos que defendem a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. A população, porém, enfrenta o peso de três guerras recentes – Gaza, Líbano e tensões com o Irã – que deixaram o país isolado internacionalmente.
Além das questões de segurança, a campanha de Netanyahu tem sido marcada pela recusa em aceitar responsabilidade pelo massacre de 7 de outubro de 2023, quando dezenas de civis palestinos foram mortos em ataques coordenados. O primeiro‑ministro também rejeitou a criação de uma comissão independente de inquérito, alimentando a percepção de impunidade entre seus críticos. Esses fatores aumentam a pressão sobre seu partido, o Likud, que ainda lidera as pesquisas, mas não garante maioria absoluta no Knesset.
Os principais pontos de controvérsia que influenciam o voto podem ser resumidos em:
- Reforma judicial que poderia reduzir o poder do Supremo Tribunal.
- Processos de corrupção que incluem suborno, fraude e abuso de poder.
- Política de assentamentos e a relação com a Autoridade Palestina.
- Gestão das guerras em Gaza e fronteira norte.
Essas questões são apresentadas pelos opositores como sinais de que Netanyahu tem colocado interesses partidários acima da segurança e da democracia israelense. A oposição espera que a eleição funcione como um referendo de rejeição ao estilo de governo do atual primeiro‑ministro.
Gadi Eisenkot: o candidato da oposição
Gadi Eisenkot, ex‑general e ex‑chefe do Estado‑Maior, lidera o partido Yashar, uma formação centrista que busca unir diferentes correntes anti‑Netanyahu. Aos 66 anos, Eisenkot tem reputação de integridade e capacidade de diálogo, atributos que lhe permitem conversar com setores tanto da direita quanto da esquerda. Ele se apresenta como a alternativa capaz de restaurar a confiança pública no governo e preservar Israel como uma democracia judaica.
Embora também se oponha a um Estado palestino, Eisenkot propõe fortalecer a Autoridade Palestina como parceiro de paz, ao mesmo tempo em que promete desmantelar os assentamentos ilegais na Cisjordânia e combater os colonos extremistas. Seu plano inclui a expansão do serviço militar obrigatório para incluir os ultraortodoxos, que atualmente são isentos e recebem subsídios do Estado, gerando forte debate entre eleitores seculares.
Um dos episódios que humaniza Eisenkot perante o eleitorado é a tragédia familiar vivida durante a guerra em Gaza: seu filho mais novo, Gal, morreu ao tentar salvar corpos de reféns, e dois sobrinhos também foram mortos em combate. Essa perda pessoal reforça sua narrativa de compromisso com a segurança nacional e a missão de proteger Israel a qualquer custo.
Na campanha, Eisenkot enfatiza três pilares fundamentais:
- Recuperar a confiança nas instituições democráticas.
- Acabar com o domínio do Hamas em até 18 meses, mediante ação militar coordenada.
- Promover a igualdade de serviço militar, integrando ultraortodoxos ao exército.
Essas propostas são apresentadas como soluções para os problemas que, segundo ele, Netanyahu agravou ao priorizar interesses ideológicos sobre a segurança e a coesão social.
Cenário pós‑eleitoral e possibilidades de coalizão
As pesquisas indicam que o Yashar de Eisenkot está ligeiramente à frente do Likud, mas nenhum dos partidos deve alcançar as 61 cadeiras necessárias para formar governo sozinho. Isso obriga ambos a buscar alianças com outras legendas, tornando a negociação de coalizões o fator decisivo para definir quem comandará o gabinete.
Eisenkot planeja montar uma frente ampla que inclua figuras de direita como Naftali Bennett e Avigdor Lieberman, bem como líderes de esquerda como Yair Golan e Yair Lapid. Essa estratégia visa criar um bloco suficientemente grande para superar o Likud e garantir maioria no Knesset.
Um ponto de atrito crucial será a postura em relação aos partidos árabes. Netanyahu historicamente descartou a participação desses grupos, considerando‑os ameaça à identidade judaica do Estado. Eisenkot, por outro lado, não descarta negociações com políticos árabes, desde que aceitem exigências como o desmantelamento do Hamas e a garantia de segurança para os cidadãos israelenses.
Se Eisenkot conseguir firmar acordos com os partidos árabes e com os centristas, a coalizão resultante pode ser a primeira a incluir representantes árabes no governo desde a assinatura dos Acordos de Oslo. Essa possibilidade tem gerado intenso debate sobre a identidade nacional e a viabilidade de um Israel verdadeiramente plural.
Por outro lado, Netanyahu tem demonstrado habilidade em “tirar cartas da manga”, como já fez ao formar governos de coalição com partidos ultraortodoxos e de extrema‑direita em mandatos anteriores. Caso o Likud consiga reunir apoio suficiente dos partidos religiosos e nacionalistas, ele poderá permanecer no poder, ainda que com um gabinete mais estreito e sujeito a pressões internas.
Independentemente do vencedor, o país enfrentará desafios imediatos: a necessidade de estabilizar a situação de segurança na fronteira sul, avançar nas negociações com a Autoridade Palestina e lidar com a pressão internacional para restaurar a confiança nas instituições judiciais. O próximo governo terá que equilibrar a demanda por segurança com a urgência de reformas econômicas e sociais que atendam a uma população cada vez mais polarizada.
Analistas apontam que a eleição de 2023 será lembrada como um ponto de inflexão na história política de Israel, marcando o fim de um período de liderança prolongada e a abertura para novas dinâmicas de poder. A capacidade dos líderes eleitos de construir pontes entre as diferentes facções será determinante para evitar novos ciclos de instabilidade.
Em resumo, o futuro de Israel dependerá de como o novo governo conciliará a necessidade de segurança nacional com a demanda por reformas democráticas, justiça social e inclusão de minorias. A escolha dos eleitores nesta terça‑feira definirá não apenas quem ocupará o cargo de primeiro‑ministro, mas também a direção estratégica que o país seguirá nos próximos anos.








