Um álbum jamais lançado do cantor, compositor e arranjador paraense foi apresentado ao público em Belém, na noite de 25 de setembro, data que coincidia com o aniversário de 80 anos que o artista teria completado. O evento ocorreu no histórico Teatro Margarida Schivasappa, reunindo vinte intérpretes que reencenaram a obra do músico falecido há três anos. Essa estreia marca o retorno de gravações que permaneceram guardadas em uma fita cassete por quase quarenta anos.
A descoberta da fita perdida
O ponto de partida da história foi a decisão do jornalista e amigo de longa data de Paulo André, Edgar Proença, de preservar a única cópia conhecida das músicas inéditas, gravada em 1987. A fita, um rolo de áudio analógico, ficou armazenada em sua residência, longe dos holofotes da indústria fonográfica. Apenas em 2023, ao revisitar seu acervo, Proença percebeu que aquela gravação continha material de valor histórico e artístico incomparável.
Ao abrir o rolo, ele encontrou dez faixas, entre elas a canção “Izabela”, dedicada à sobrinha do compositor e fruto da parceria entre o próprio Paulo André e seu amigo Edyr Proença. O conteúdo revelou não só a criatividade do artista, mas também a colaboração familiar, já que a maioria das composições foi coescrita com seu pai, o poeta Ruy Barata.
Do restauro à digitalização
O caminho para tornar o áudio acessível exigiu um processo minucioso de limpeza e digitalização, realizado em estúdios de Belém por técnicos especializados. Cada faixa foi submetida a tratamento anti‑ruído, equalização e correção de velocidade, garantindo que o som original fosse preservado sem perder a fidelidade sonora.
Posteriormente, o engenheiro de som Artur Luna, no Rio de Janeiro, realizou a remasterização final, ajustando os níveis de frequência e dinamismo para atender aos padrões de qualidade das plataformas digitais atuais. Esse trabalho colaborativo entre profissionais de duas capitais reforçou a importância do projeto como um esforço nacional de preservação cultural.
O artista visual Léo Bitar e a produtora musical Ziza Padilha coordenaram a finalização da obra no Pará, supervisionando a arte da capa, o encarte e a estratégia de lançamento. O selo Na Music foi responsável por distribuir o álbum em formato físico (CD) e nas principais plataformas de streaming.
- Edgar Proença – guardião da fita original e amigo íntimo do compositor;
- Tito Barata – irmão de Paulo André, produtor original da gravação em 1987;
- Artur Luna – engenheiro de som que realizou a remasterização no Rio de Janeiro;
- Léo Bitar – diretor artístico responsável pela identidade visual do álbum;
- Ziza Padilha – produtora musical que conduziu o projeto até a sua finalização.
O tributo e o legado musical
Para celebrar o lançamento, foi organizado um espetáculo tributo que reuniu cantores, músicos e poetas que interpretaram as músicas do álbum ao vivo. O programa, dividido em quatro blocos temáticos, contou com a participação de artistas como Paes Loureiro, Alfredo Oliveira e a própria família Barata, que apresentaram versões inéditas de faixas como “Porto Caribe” e “Este Rio é Minha Rua”.
Além da performance, o público pôde adquirir o CD autografado e acessar o álbum nas plataformas digitais, ampliando o alcance da obra para ouvintes de todo o Brasil. O projeto também incluiu uma exposição fotográfica que documentou a trajetória de Paulo André, desde seus primeiros shows nos anos 1970 até a produção da fita master em 1987.
A iniciativa reforça a importância de resgatar acervos musicais que, por falta de investimento ou circunstâncias técnicas, permanecem esquecidos. Ao colocar o disco “Na Correnteza” em circulação, os responsáveis garantem que novas gerações descubram a riqueza melódica e poética que caracteriza a música paraense.
Em 2025, a obra de Paulo André foi oficialmente reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Estado do Pará, por meio da Lei nº 11.098, aprovada unanimemente pela Assembleia Legislativa. Essa certificação legitima o valor histórico do álbum e assegura apoio institucional para futuras ações de preservação.
Hoje, o álbum está disponível em todas as plataformas de streaming, como Spotify, Apple Music e Deezer, e também pode ser adquirido em formato físico nas lojas especializadas da região. A campanha de divulgação, conduzida pelo selo Na Music, inclui entrevistas, podcasts e posts em redes sociais que destacam a trajetória do artista e a relevância do projeto.
O lançamento de “Na Correnteza” demonstra como a combinação de memória afetiva, tecnologia de restauração e apoio institucional pode transformar um tesouro esquecido em um marco cultural contemporâneo. O público que assistiu ao tributo em Belém saiu inspirado, reconhecendo que a música de Paulo André continua viva nas ruas, nos rios e nos corações dos paraenses.








