Uma pesquisa nacional realizada pelo Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos (LINA), do Instituto Oyá, revelou que 65% dos brasileiros não confiam nos políticos. O levantamento foi conduzido entre maio e junho de 2024, nas vésperas das eleições de 2026. O estudo abrangeu todas as regiões do país, entrevistando 2 mil cidadãos.
Panorama geral da confiança nas instituições
Os dados apontam uma crise de credibilidade que ultrapassa os partidos e chega ao Congresso Nacional. Enquanto 64% dos entrevistados descrevem os partidos como descrentes, 54% manifestam desconfiança em relação ao Legislativo. O Executivo, nas esferas federal, estadual e municipal, registra 45% de descrédito, indicando que a percepção negativa está espalhada por todo o poder público.
O Supremo Tribunal Federal (STF) também aparece entre as instituições menos confiáveis, com 41% dos participantes expressando descrédito. Por outro lado, o sistema eleitoral ainda mantém algum grau de confiança: 41% dos respondentes acreditam que as eleições são seguras, embora 17% admitam desconfiança.
- Partidos políticos: 64% de descrédito
- Congresso Nacional: 54% de descrédito
- Executivo (federal, estadual e municipal): 45% de descrédito
- Supremo Tribunal Federal: 41% de descrédito
- Sistema eleitoral: 41% de confiança, 17% de desconfiança
Esses números sugerem que a falta de confiança não está concentrada em um único órgão, mas se distribui de forma ampla pelo cenário político brasileiro. A pesquisadora Karina Camilo, diretora‑executiva do Instituto, interpreta o quadro como um sinal de sobrecarga do cidadão com modelos de representação que não atendem às urgências do cotidiano.
Causas da desconfiança e impacto das fake news
Um dos fatores mais críticos identificados pelo estudo é a vulnerabilidade da população a informações falsas, sobretudo quando carregam apelo emocional. Os entrevistadores compararam a reação a duas notícias sobre eventos climáticos extremos para medir esse efeito.
A notícia falsa estabelecia uma comparação fictícia entre as enchentes recentes no Rio Grande do Sul e o furacão Katrina, nos Estados Unidos. Surpreendentemente, 78% dos participantes aceitaram a informação como verdadeira, demonstrando a força de narrativas sensacionalistas.
Em contraste, a notícia verdadeira, baseada em dados do Cemaden e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), recebeu adesão de 69% dos entrevistados. Embora ainda alta, a diferença de 9 pontos evidencia que a veracidade não garante automaticamente a aceitação.
Esses resultados apontam para duas conclusões importantes. Primeiro, o conteúdo emocional tende a superar a lógica dos fatos. Segundo, a baixa confiança nas instituições cria um terreno fértil para a propagação de narrativas enganosas.
- Apelo emocional aumenta a aceitação de informações falsas
- Falta de confiança institucional facilita a disseminação de fake news
- Dados oficiais ainda são acreditados por maioria, mas com margem reduzida
Além das fake news, o estudo destacou que a percepção de ineficácia dos representantes políticos alimenta o descontentamento. Muitos entrevistados relataram que as propostas apresentadas pelos partidos não correspondem às necessidades imediatas, como saúde, educação e segurança.
Essa sensação de desconexão gera um ciclo de desconfiança: quanto menos os cidadãos acreditam nas instituições, maior a probabilidade de buscar fontes alternativas, muitas vezes não verificadas.
Cenário para as eleições de 2026
Com as eleições de 2026 se aproximando, o panorama revelado pelo LINA indica desafios significativos para a democracia brasileira. A baixa confiança pode reduzir a participação eleitoral, ou, ao contrário, intensificar o voto de protesto.
Especialistas alertam que partidos precisarão reconstruir sua credibilidade antes da campanha. Estratégias de transparência, comunicação direta e prestação de contas são apontadas como essenciais para reverter o quadro.
Ao mesmo tempo, órgãos de controle e plataformas digitais são pressionados a intensificar a checagem de fatos. A experiência com a notícia falsa sobre o furacão Katrina demonstra que mecanismos de verificação ainda são insuficientes para impedir a aceitação massiva de desinformação.
Para o eleitorado, a pesquisa sugere a necessidade de maior educação midiática. Quando os cidadãos conseguem distinguir entre conteúdo sensacionalista e dados verificáveis, a influência das fake news diminui, fortalecendo a confiança nas instituições que ainda mantêm algum grau de legitimidade.
Em resumo, a pesquisa do LINA traz um diagnóstico alarmante, mas também aponta caminhos de ação. Reconstruir a confiança exige esforços coordenados entre políticos, sociedade civil e meios de comunicação.
O futuro da política brasileira dependerá, em grande parte, da capacidade de responder às demandas cotidianas da população e de combater a desinformação de forma eficaz.








