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Derretimento das geleiras nas Dolomitas expõe explosivos da Primeira Guerra Mundial

O derretimento acelerado das geleiras nas Dolomitas, região montanhosa do norte da Itália, revelou nesta terça‑feira, 27 de outubro, cerca de 250 artefatos explosivos da Primeira Guerra Mundial. A descoberta ocorreu durante as atividades de busca realizadas pelos militares italianos, que encontraram projéteis, bombas e morteiros preservados pelo gelo por mais de um século.

Descoberta dos explosivos e seu contexto histórico

O Exército italiano confirmou que foram encontrados 18 projéteis de artilharia de 75 mm de origem italiana e 37 projéteis de morteiro do modelo Thevetot, fabricado na França e fornecido ao exército real italiano entre 1914 e 1918. Além desses, foram localizadas bombas de morteiro francesas que também fizeram parte do arsenal da chamada guerra branca, conflito travado nas altas altitudes entre tropas italianas e austro‑húngaras.

Os materiais foram removidos pelo destacamento da Brigada Alpina Julia e desativados de forma segura. Segundo Stefano Morosini, professor da Universidade de Bergamo e coordenador de projetos de patrimônio no Parque Nacional Stelvio, a frequência desses achados tem aumentado nos últimos verões, à medida que o gelo perde sua capacidade de preservação.

  • 18 projéteis de artilharia italianos (75 mm)
  • 37 projéteis de morteiro Thevetot (francês)
  • Bombas de morteiro francesas
  • Diversos fragmentos de munição ainda não identificados

Esses artefatos eram parte de um estoque estratégico depositado nas montanhas durante a guerra, onde as condições climáticas extremas dificultavam o acesso e ajudavam a manter o material intacto. O derretimento atual traz à superfície não apenas munições, mas também objetos pessoais dos soldados, como lanternas, diários e roupas, que foram preservados em cabanas e abrigos de alta altitude.

Riscos e respostas das autoridades

As autoridades locais emitiram alertas imediatos a turistas e praticantes de trilhas, recomendando que qualquer objeto suspeito seja evitado e comunicado à polícia sem tentativa de manipulação. A orientação visa prevenir acidentes graves, já que explosivos antigos podem ser altamente instáveis após décadas de exposição ao gelo e ao calor.

Durante o verão, relatos de visitantes no Vale Primiero, no leste de Trentino, apontaram a presença de bombas e projéteis espalhados ao longo de trilhas populares. Em resposta, equipes de desminagem foram mobilizadas para varrer a região e outras áreas de alta altitude, como as geleiras de Trentino‑Alto Ádige.

Especialistas apontam que o risco não se limita aos explosivos. O aquecimento das geleiras também aumenta a probabilidade de desprendimentos de massa de gelo, como o trágico incidente de 2022 na Marmolada, que resultou na morte de 11 pessoas. Assim, a combinação de explosivos expostos e instabilidade geológica eleva significativamente o perigo para visitantes.

Impactos do aquecimento global nas áreas de alta montanha

O fenômeno do derretimento das geleiras nas Dolomitas está diretamente ligado ao aquecimento global, que tem registrado temperaturas recordes nos verões europeus. Esse cenário não apenas revela artefatos históricos, mas também altera permanentemente a paisagem alpina, expondo áreas que permaneceram congeladas por mais de um século.

Além dos explosivos, o gelo derretido tem revelado documentos militares, mapas topográficos e até mesmo restos de trenós utilizados pelos soldados. Em 2015, um antigo quartel de madeira reapareceu nas encostas do Monte Scorluzzo, a 3.095 metros de altitude, contendo camas de palha, roupas, lanternas, jornais, cartões‑postais, moedas e alimentos enlatados, todos em estado de conservação surpreendente.

Para preservar essa memória e garantir a segurança pública, as autoridades italianas planejam inaugurar, em junho de 2027, um museu dedicado à guerra branca na cidade de Bormio. O espaço reunirá os objetos recuperados, oferecendo ao público uma visão detalhada do conflito que marcou a região entre 1915 e 1918.

Enquanto isso, os cientistas continuam monitorando a taxa de derretimento das geleiras, alertando que o ritmo acelerado pode levar à exposição de ainda mais munições e ao aumento de incidentes de segurança. O desafio consiste em equilibrar a preservação histórica com a necessidade de proteger a população e os visitantes das montanhas.

Em síntese, o fenômeno do derretimento nas Dolomitas funciona como um alerta duplo: por um lado, traz à luz fragmentos de um passado bélico que ainda carregam perigos reais; por outro, evidencia os efeitos concretos das mudanças climáticas nas regiões alpinas, exigindo respostas coordenadas entre militares, autoridades civis e especialistas ambientais.

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