Na manhã da última quinta‑feira (5), deputados da oposição apresentaram um pedido formal de impeachment contra o presidente do Paraguai, Santiago Peña, e seu vice, Pedro Alliana, acusando‑os de responsabilidade pela crise que atingiu o Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país, e que deixou congelados os depósitos de cerca de três milhões de clientes.
Contexto da crise bancária
A turbulência começou quando o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por falta de capital, suspendendo todas as suas operações. A medida gerou longas filas nas agências, protestos nas ruas de Assunção e a renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo.
Quase metade da população paraguaya – aproximadamente 6,4 milhões de habitantes – possui conta no Ueno, o que transformou a situação em um problema nacional de proporções inéditas.
- Intervenção do BCP por insuficiência de capital;
- Congelamento de depósitos de 3 milhões de clientes;
- Renúncia do presidente do Banco Central;
- Protestos massivos em Assunção.
Acusações contra o presidente e o vice‑presidente
O documento apresentado à Câmara dos Deputados descreve o caso como “mau desempenho de suas funções no exercício do cargo”. Entre as acusações estão conflito de interesses, aumento suspeito do patrimônio pessoal e decisões regulatórias supostamente favorecedoras ao Ueno Bank.
Peña, que assumiu a presidência em 2023 com mandato até 2028, possuía ações de um conglomerado que controlava o banco digital. Ele se desvinculou dessas ações em março de 2025, mas a oposição sustenta que ainda influenciou políticas que direcionaram recursos previdenciários para a instituição, lembrando o escândalo Master no Brasil.
Procedimento de impeachment no Paraguai
Para que o processo avance, são necessários dois terços dos votos dos deputados – 53 de um total de 80. Caso a Câmara aprove a denúncia, o caso segue para o Senado, onde são exigidos 30 votos favoráveis entre os 45 senadores para a destituição dos mandatários.
Até o momento, 35 deputados assinaram a acusação e solicitaram que o presidente da Câmara convoque sessão extraordinária ainda nesta quinta‑feira. Ainda não se sabe se a bancada governista, que detém a maioria nas duas casas, apoiará a iniciativa.
- Etapa 1 – Aprovação na Câmara (mínimo de 53 votos);
- Etapa 2 – Julgamento no Senado (mínimo de 30 votos);
- Consequência – Possível destituição de Peña e Alliana.
Reações da sociedade e do governo
Centenas de manifestantes se reuniram em Assunção exigindo a devolução dos recursos e o afastamento dos líderes políticos. A médica Teresa Montiel, ao lado de um cartaz com a frase “Unidos somos mais fortes”, declarou à AFP que o dinheiro congelado inclui suas aposentadorias, gerando medo e insegurança.
Em resposta à pressão, Peña sancionou uma lei emergencial que autoriza o pagamento parcial dos depósitos nos próximos cinco dias, prometendo que parte do fundo de garantia será devolvida “no menor prazo possível”.
O Congresso também aprovou a indicação de um dos três candidatos sugeridos pelo Executivo para compor o conselho diretor do Banco Central, medida que busca estabilizar a instituição após a denúncia que culminou na prisão de oito pessoas, entre elas o presidente do Ueno, Miguel Vázquez.
Antecedentes políticos e risco de instabilidade
O Partido Colorado, liderado por Peña, detém maioria nas duas câmaras, mas seu presidente histórico, Horacio Cartes, se afastou do governo, sinalizando possíveis fissuras internas. O último impeachment no Paraguai ocorreu em 2012, quando Fernando Lugo foi destituído após um massacre que matou 11 camponeses e 6 policiais, encerrando seis décadas de hegemonia do Colorado.
Se o processo atual avançar, o país enfrentará novamente um momento de alta tensão institucional, com risco de desconfiança nos bancos, nos órgãos reguladores e nas próprias estruturas democráticas.








