Na quarta‑feira, 28 de outubro de 2026, a deputada argentina Marcela Pagano registrou uma denúncia formal na Justiça Federal de Puerto Iguazú, alegando que o senador Flávio Bolsonaro teria entrado no território argentino em voo particular, apesar de ordem judicial que o proibia de deixar o Brasil.
Denúncia apresentada pela deputada
Pagano utilizou a rede social X para anunciar a ação antes mesmo de as autoridades argentinas confirmarem a presença do senador, de sua esposa e das duas filhas na fronteira. Ela destacou que a viagem ocorreu em violação direta a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que impôs a entrega dos passaportes e a restrição de saída do país.
Na mensagem, a parlamentar questionou quem teria facilitado a entrada e apontou possíveis falhas na fiscalização nos aeroportos federais argentinos. “Se entrou, alguém o deixou entrar. Se tentaram tirá‑lo por um aeroporto federal, alguém olhou para o outro lado”, escreveu.
Além de registrar a denúncia penal, Pagano solicitou a preservação de provas essenciais para a investigação, como imagens de câmeras de segurança da ponte internacional e do aeroporto, planos de voo, lista de passageiros e o contrato do voo fretado.
- Imagens das câmeras da ponte Tancredo Neves;
- Gravações das câmeras do aeroporto de Puerto Iguazú;
- Planos de voo apresentados à ANAC;
- Lista completa de passageiros do voo charter;
- Contrato da empresa Baires Fly.
Ela também pediu que se investigue eventual crime de tráfico de pessoas em trânsito e o descumprimento de deveres por parte de funcionários públicos que possam ter facilitado a passagem.
Detalhes da viagem e das autoridades envolvidas
Segundo a Direção Nacional de Migrações da Argentina, o grupo chegou ao país às 22h50 da terça‑feira, 27 de outubro, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (Brasil) a Puerto Iguazú (Argentina). O órgão informou que todos apresentaram documentos válidos e não tinham impedimentos migratórios.
Quarenta minutos depois, às 23h30, os quatro embarcaram em um avião particular operado pela empresa argentina Baires Fly, com destino declarado a Guayaquil, no Equador. O voo foi registrado como um charter, e a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) teria interrompido a decolagem ao perceber a irregularidade.
O governo dos Estados Unidos, por sua vez, anunciou que Flávio e sua família receberiam vistos de entrada nos EUA, alimentando ainda mais as suspeitas de que a viagem teria como objetivo alcançar território norte‑americano.
O senador, filiado ao PL, havia sido alvo de investigação por suspeita de lavagem de dinheiro, envolvendo também o advogado Willer Tomaz. Ambos negam qualquer irregularidade, mas a ordem judicial de Moraes permanece em vigor, exigindo a entrega dos passaportes e proibindo a saída do Brasil.
A imprensa argentina e brasileira divulgou informações contraditórias sobre o paradeiro do senador após a partida, o que reforçou a necessidade de preservar as imagens de câmeras e os documentos de voo solicitados por Pagano.
Repercussões políticas e jurídicas
A denúncia de Pagano chega em um momento de tensão política entre Brasil e Argentina, sobretudo após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2026. Flávio Bolsonaro, que perdeu a disputa, havia prometido permanecer no Brasil e liderar a oposição ao novo governo.
A própria deputada Marcela Pagano, eleita em 2023 pela coalizão La Libertad Avanza e, desde agosto de 2025, integrante do bloco Coerência, tem adotado postura independente no Congresso, frequentemente criticando tanto o governo argentino quanto ações de políticos estrangeiros que, em sua visão, violam a soberania nacional.
Em sua publicação, Pagano reforçou que “a fronteira argentina não é um corredor VIP de ninguém” e que “a soberania não se negocia nem se empresta”. Essas declarações buscam enfatizar que procedimentos irregulares não podem ser tolerados, sob pena de abrir precedentes que enfraqueceriam o controle migratório.
Do lado brasileiro, o Ministério da Justiça ainda não se pronunciou oficialmente sobre a suposta violação da ordem judicial, mas analistas apontam que o caso pode gerar novas medidas de controle de fronteira e, possivelmente, processos criminais contra quem facilitou a entrada.
Especialistas em direito internacional alertam que a cooperação entre as autoridades de ambos os países será crucial para esclarecer se houve conluio ou falha institucional. Caso se confirme que autoridades argentinas fecharam os olhos para a entrada, isso pode gerar repercussões diplomáticas.
Enquanto isso, a população argentina tem demonstrado preocupação nas redes sociais, questionando se a “porta de entrada” do país está sendo usada como rota privilegiada para políticos estrangeiros. Comentários em fóruns locais pedem maior transparência e fiscalização nos pontos de controle migratório.
O caso ainda está em fase inicial, mas a combinação de denúncia penal, solicitação de preservação de provas e o contexto político sensível pode transformar a situação em um marco para a relação Brasil‑Argentina no âmbito da segurança de fronteiras.








