Agricultores do Rio Grande do Sul enfrentam escassez de diesel nas semanas que antecedem o plantio da safra de verão, em meio à instabilidade dos preços globais provocada pelos conflitos no Oriente Médio. A situação se intensifica a partir de junho de 2024, quando os estoques começaram a cair drasticamente nos postos da região. O problema afeta tanto grandes produtores quanto pequenos familiares espalhados por municípios como Santa Cruz do Sul, Júlio de Castilhos e Santa Maria.
Impacto dos conflitos no Oriente Médio nos preços internacionais
Desde o início da ofensiva militar no Oriente Médio, os mercados de energia têm registrado volatilidade sem precedentes. O diesel, commodity essencial para o agronegócio brasileiro, viu seu preço subir cerca de 15% no mercado internacional, pressionando os importadores.
O Brasil depende de importações equivalentes a 30% de seu consumo total de diesel, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Essa dependência torna o país vulnerável a choques externos, especialmente quando os fornecedores do Oriente Médio reduzem a oferta ou aumentam os custos de transporte.
Além do aumento de preço, a guerra gerou interrupções logísticas nas rotas marítimas que abastecem os terminais sul do país. Navios que antes traziam combustível em tempo recorde passaram a enfrentar atrasos de até duas semanas, reduzindo a reposição de estoques nos postos locais.
- Elevação de 15% no preço do diesel no mercado internacional;
- Redução de 30% na capacidade de importação do Brasil;
- Atrasos logísticos de até 14 dias nos portos do Sul.
Consequências para os produtores gaúchos
Nos campos de Santa Cruz do Sul, o agricultor Arcênio Dupont relata dificuldade para abastecer suas máquinas há três semanas. Ele conseguiu comprar apenas mil litros de diesel, metade do consumo habitual de duas mil litros para a preparação da terra.
Em Júlio de Castilhos, a cooperativa que atende cerca de 6 mil produtores enfrenta falta de combustível suficiente dos distribuidores. A escassez tem levado alguns agricultores a adiar o plantio, o que pode comprometer a produtividade da safra de verão.
Sidnei Prates, de Santa Maria, precisou recorrer a postos de combustíveis urbanos para garantir diesel para a colheita de arroz. Mesmo nesses postos, o abastecimento está restrito: o empresário Antônio Palharin recebeu apenas 50% do volume encomendado.
Essas restrições geram um efeito cascata: o aumento de custos operacionais, a necessidade de alugar máquinas adicionais ou, em casos extremos, a interrupção temporária das atividades agrícolas.
Além dos impactos financeiros, há risco de perda de competitividade no mercado interno e externo, já que a produção pode ficar aquém das metas estabelecidas pelos órgãos de apoio ao agronegócio.
Resposta das autoridades e perspectivas para o futuro
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) afirmou que, apesar das dificuldades relatadas, não há risco imediato de desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul nem no restante do país. A entidade reforçou o monitoramento dos estoques e da distribuição do combustível.
Em conjunto com a Sulpetro, a ANP está acompanhando de perto as entregas dos distribuidores e exigindo que os estoques mínimos sejam mantidos nos terminais sulistas. A meta é garantir que os postos mantenham, no mínimo, 10% a mais do que o consumo médio mensal.
O governo estadual também anunciou um programa de apoio emergencial, que inclui linhas de crédito com juros reduzidos para agricultores que precisem adquirir diesel a preço de mercado internacional.
Especialistas apontam que, se a tensão no Oriente Médio se estabilizar nos próximos meses, os preços internacionais tendem a recuar, permitindo a normalização dos estoques. Entretanto, alertam que a dependência de importações ainda representa um ponto vulnerável para o agronegócio brasileiro.
Enquanto isso, produtores têm buscado alternativas, como a adoção de biodiesel de produção local, a otimização de rotas de transporte interno e a negociação coletiva de compras em grupo para reduzir custos.
Em resumo, a crise de diesel no Rio Grande do Sul evidencia a interconexão entre conflitos geopolíticos e a segurança alimentar regional. O acompanhamento próximo das autoridades, aliado a estratégias de mitigação por parte dos agricultores, será crucial para evitar perdas significativas na safra de verão.








