Na manhã da segunda‑feira, 26 de março de 2024, a Polícia Federal deteve em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, o ex‑oficial uruguaio Pedro Antonio Mato Narbondo, já condenado pela justiça italiana por sequestro, tortura e assassinato de quatro cidadãos italianos durante a ditadura militar no Uruguai.
A prisão ocorreu após ordem do Superior Tribunal de Justiça, que homologou a sentença italiana para cumprimento no Brasil, onde o réu reside como cidadão naturalizado.
Contexto histórico da Operação Condor
Nos anos 1970, o Uruguai vivia sob um regime militar que, em conjunto com Brasil, Argentina, Chile e Paraguai, coordenava a chamada Operação Condor. Essa aliança de serviços de inteligência visava perseguir opositores políticos, utilizando táticas de sequestro, desaparecimento forçado, tortura e assassinato.
O Serviço de Informações de Defesa (SID), órgão de repressão uruguaio, contou com agentes como Narbondo, que desempenhavam papéis-chave na captura e eliminação de dissidentes. A Operação Condor foi responsável por milhares de violações de direitos humanos em toda a América do Sul.
Detalhes da prisão e procedimentos legais
Após ser localizado em Santana do Livramento, o agente foi imediatamente colocado sob custódia da Polícia Federal. Os procedimentos incluíram a leitura dos direitos, coleta de impressões digitais e a confecção de laudo pericial. Em seguida, Narbondo foi encaminhado ao sistema prisional estadual, onde permanecerá à disposição da justiça.
Desde março de 2024, o suspeito utilizava tornozeleira eletrônica e tinha restrição de saída da cidade, medida determinada pelo Ministério Público Federal para evitar risco de fuga. A prisão foi formalizada pela Corte Especial do STJ em 21 de março, seguindo parecer favorável do MPF.
Repercussões jurídicas e políticas
A decisão marca a primeira vez que um agente de um regime ditatorial cumpre pena no Brasil por crimes cometidos durante a ditadura militar. O subprocurador‑geral da República, Artur Gueiros, destacou a importância do caso para a jurisprudência de direitos humanos no país.
O STJ converteu a sentença original de prisão perpétua, aplicada pela Corte de Apelação de Milão, em 30 anos de reclusão, já que a legislação brasileira não prevê prisão perpétua. A maioria dos ministros rejeitou a aplicação da Lei da Anistia, que havia perdoado crimes políticos cometidos entre 1964 e 1985.
Impactos para a memória e os direitos humanos
O caso reacende o debate sobre a responsabilização de agentes de regimes autoritários e a necessidade de justiça transnacional. Organizações de direitos humanos celebram a decisão como um avanço na luta contra a impunidade.
Além disso, a prisão serve como alerta para outras nações que ainda abrigam indivíduos acusados de graves violações. O MPF reforçou que a cooperação internacional será essencial para garantir que todos os responsáveis sejam julgados.
Para a comunidade italiana, a sentença representa um passo importante na busca por reparação e reconhecimento das vítimas. Os familiares dos quatro italianos assassinados acompanham o caso de perto, esperando que a justiça seja efetivamente cumprida.
- Sequestro de cidadãos estrangeiros;
- Tortura física e psicológica;
- Assassinato premeditado;
- Transferência ilegal entre países;
- Encobrimento institucional.
Com a execução da pena no Brasil, o caso também evidencia a eficácia dos mecanismos de cooperação jurídica entre países latino‑americanos e europeus. A homologação da sentença italiana demonstra que fronteiras não são barreiras para a responsabilização de crimes de lesa‑humanidade.
Em resumo, a prisão de Pedro Antonio Mato Narbondo simboliza um marco histórico na luta contra a impunidade, reforçando o compromisso do Brasil com a justiça internacional e a memória das vítimas da ditadura.








