Em fevereiro de 2019, uma mulher de 41 anos começou a apresentar crises epilépticas que ocorriam exclusivamente durante o período menstrual, levando médicos a investigar uma causa incomum no cérebro. O caso foi estudado na Universidade de Medicina e Farmácia Grigore T. Popa, em Iași, Romênia, e publicado no Journal of Clinical Medicine em setembro de 2024.
O início das crises e a descoberta da correlação com a menstruação
Na primeira ocorrência, a paciente perdeu a consciência parcial ou total, ficou com o olhar fixo e, ao término da crise, apresentou confusão e lapsos de memória recente. Não havia histórico familiar de epilepsia e os ciclos menstruais eram regulares, sem queixas de cólicas intensas ou dor pélvica típica da endometriose.
Somente seis meses após a primeira crise a mulher procurou um neurologista. O especialista recomendou o registro detalhado de cada episódio e das datas de sangramento, o que revelou um padrão claro: as convulsões apareciam apenas nos dias de menstruação.
Exames de imagem, hipóteses diagnósticas e a ausência de confirmação histológica
A ressonância magnética realizada em agosto de 2019 mostrou uma área difusa de alteração no hipocampo direito, região cerebral responsável pela memória e frequentemente associada a crises epilépticas. Os radiologistas consideraram inicialmente uma má‑formação cortical, infecção ou tumor.
Um eletroencefalograma feito fora das crises não evidenciou descargas típicas de epilepsia, e os testes cognitivos de memória e raciocínio foram normais. Enquanto isso, a paciente foi tratada com dois antiepilépticos diferentes, isoladamente ou em combinação, por cerca de um ano e meio, sem sucesso.
Em 2020, uma nova ressonância revelou um pequeno nódulo de aproximadamente um centímetro na parte posterior do hipocampo direito, que absorvia contraste e apresentava um ponto escuro possivelmente constituído por cálcio ou ferro de sangramento antigo. Essa característica levantou a suspeita de presença de sangue, o que trouxe a endometriose cerebral como uma hipótese plausível.
Os pesquisadores optaram por não realizar biópsia da lesão, considerando o risco de danificar o hipocampo. Assim, o diagnóstico foi rotulado como “endometriose cerebral presumida”, indicando que a presença de tecido endometrial era provável, mas não confirmada laboratorialmente.
Tratamento hormonal e a reversão completa da lesão
Em 2021, após reconhecer a correlação entre as crises e a menstruação, a equipe médica iniciou terapia hormonal com dois compostos sintéticos semelhantes à progesterona: dienogeste e desogestrel. Esses fármacos são amplamente usados no manejo da endometriose genital.
- Dienogeste – dose diária de 2 mg, administrado por via oral.
- Desogestrel – dose diária de 0,075 mg, também em forma de comprimido.
Os antiepilépticos foram interrompidos três meses depois de iniciar a terapia hormonal. Surpreendentemente, as convulsões cessaram totalmente, e a paciente não relatou mais sintomas neurológicos associados ao ciclo menstrual.
Em março de 2026, sete anos após a primeira crise, uma nova ressonância magnética mostrou a completa desaparecimento da lesão no hipocampo direito, corroborando a eficácia do tratamento hormonal e reforçando a hipótese de que o tecido endometrial havia sido eliminado ou reabsorvido.
Implicações clínicas, desafios diagnósticos e perspectivas de pesquisa
Este caso destaca a importância de considerar causas hormonais e ginecológicas em pacientes com epilepsia de início tardio e padrão cíclico. A relação entre endometriose e manifestações neurológicas ainda é pouco compreendida, mas relatos como este sugerem que tecido endometrial pode migrar ou se implantar em locais extra‑pélvicos, incluindo o cérebro.
Do ponto de vista diagnóstico, a ausência de biópsia limita a certeza, mas a combinação de imagem de ressonância com contraste, a correlação temporal com a menstruação e a resposta ao tratamento hormonal oferece um forte argumento clínico.
Para a comunidade médica, o caso enfatiza a necessidade de um acompanhamento multidisciplinar envolvendo neurologistas, ginecologistas e radiologistas, sobretudo quando as crises epilépticas apresentam padrão cíclico ou resistência a terapias convencionais.
Em termos de pesquisa, a descoberta abre caminhos para investigar os mecanismos de disseminação de células endometriais ao sistema nervoso central, bem como para avaliar a eficácia de diferentes protocolos hormonais em casos semelhantes. Estudos futuros podem incluir análises genéticas, exames de imagem avançada e, quando seguro, biópsias dirigidas.
Por fim, o relato reforça que a abordagem personalizada – baseada na história menstrual da paciente, nos achados de imagem e na resposta ao tratamento – pode transformar o prognóstico de quadros neurológicos aparentemente inexplicáveis, trazendo alívio e qualidade de vida para pacientes que antes viviam sob o medo de crises recorrentes.








