A China está exportando frango a preços até 20% menores que os praticados pelo Brasil, intensificando sua presença em mercados globais a partir de 2025. O aumento de oferta surge após anos de expansão da produção avícola e de políticas de segurança alimentar. Essa mudança afeta compradores na África, Europa e Ásia que antes dependiam de fornecedores tradicionais.
Expansão da produção avícola chinesa
Nos últimos cinco anos, a produção de aves na China ultrapassou a marca de 59 milhões de toneladas, estabelecendo recordes históricos. Investimentos em tecnologia de incubação, automação de galpões e melhoramento genético permitiram que a capacidade de alojamento crescesse de 20 mil para 120 mil aves por unidade em algumas empresas. O governo incentivou o setor com subsídios que representaram cerca de 13% da receita bruta dos produtores agrícolas entre 2022 e 2024.
Além dos incentivos financeiros, a estratégia de segurança alimentar priorizou a diversificação da proteína consumida pela população. Enquanto a carne suína registrou queda de 13% no consumo per capita desde 2023, o consumo de frango aumentou mais de 50% na mesma década. Essa inversão de preferência reduziu a pressão sobre os rebanhos de porcos e liberou capacidade produtiva para as aves.
Empresas como a Wintop Food ampliaram seus galpões, passando de 20 mil para 120 mil frangos por estrutura, e adotaram processos de alimentação de precisão que diminuem o custo do alimento em até 15%. A combinação de escala e eficiência resultou em custos de produção que ficam entre 10% e 20% abaixo dos praticados pelos principais exportadores sul‑americanos.
- Investimento em automação de linhas de abate
- Uso de rações de origem local
- Programas de melhoramento genético focados em ganho de peso rápido
Essas iniciativas criaram um excedente que, ao encontrar mercados saturados internamente, foi canalizado para a exportação. Em 2025, as exportações chinesas de frango alcançaram US$ 2,6 bilhões, quase o dobro do volume registrado em 2020.
Impactos nos mercados internacionais
Os compradores africanos foram os primeiros a buscar alternativas mais econômicas, especialmente após a volatilidade cambial que encareceu as importações brasileiras. Em março de 2024, a empresa brasileira Branexx iniciou a compra de peito e coxa de frango da China para atender a esses clientes, aproveitando a diferença de preço de 10% a 20%.
Na Europa, a participação chinesa no mercado de produtos de aves processadas dobrou desde 2022, chegando a 10% nas importações da União Europeia. No Reino Unido, a fatia chinesa ultrapassou 14%, triplicando a presença anterior. Esses números pressionam produtores locais a reduzir custos ou a buscar nichos de valor agregado.
Na Ásia, a Tailândia, tradicional exportadora de frango, tem visto seus compradores comparar preços chineses como referência, gerando tensões comerciais. Representantes da indústria tailandesa afirmam que a concorrência chinesa está forçando renegociações de contratos e ajustes de margens.
Além do frango, a China também intensificou a exportação de laticínios, com projeções de US$ 600 milhões em 2026, o dobro do volume de três anos antes. Essa diversificação reforça a estratégia de ocupar cadeias de suprimento que antes eram dominadas por países como o Brasil, Argentina e Nova Zelândia.
Desafios e perspectivas para o Brasil
Para os exportadores brasileiros, a concorrência chinesa representa um alerta sobre a necessidade de inovação e de redução de custos. A dependência de cadeias de suprimento de ração importada e a falta de automação em muitos frigoríficos aumentam a vulnerabilidade frente a ofertas mais baratas.
Especialistas sugerem que o Brasil pode focar em diferenciação de qualidade, certificações sanitárias rigorosas e em nichos como frango orgânico ou livre de antibióticos. Essas estratégias podem justificar preços premium e atender a consumidores dispostos a pagar mais por segurança alimentar.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tem buscado acordos comerciais que garantam acesso preferencial a mercados estratégicos. A renegociação de tarifas na União Europeia e a ampliação de acordos com países da África podem mitigar o impacto da concorrência de baixo custo.
Entretanto, a questão da sustentabilidade também ganha relevância. Consumidores globais estão cada vez mais atentos ao impacto ambiental da produção avícola, e a China tem investido em tecnologias de redução de emissões que podem se tornar um diferencial competitivo.
Em resumo, a ascensão da China como exportadora de frango barato redefine o panorama do comércio internacional de proteínas. Enquanto os produtores chineses consolidam sua posição com preços agressivos, o Brasil precisa repensar sua estratégia de valor, qualidade e sustentabilidade para manter sua fatia de mercado.








