Na manhã da quinta‑feira, 17 de julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que pacientes com obesidade grave passarão a receber canetas emagrecedoras pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O anúncio ocorreu durante visita ao novo complexo industrial da Eurofarma, em Montes Claros (MG), e a medida será efetivada mediante prescrição médica e critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
O que são as canetas emagrecedoras
As canetas emagrecedoras são dispositivos que administram, por via subcutânea, medicamentos injetáveis capazes de reduzir o apetite e melhorar o metabolismo da glicose. O principal composto utilizado atualmente é a semaglutida, um análogo do hormônio GLP‑1 que já possui comprovação científica em ensaios internacionais. Produzida no Brasil pela Eurofarma em parceria com a Novo Nordisk, a formulação comercializada como Poviztra chegou ao mercado em outubro de 2023.
O custo do tratamento varia entre R$ 400 e R$ 1.100, dependendo da dose e do programa de fidelidade da empresa. Essa variação de preço representa uma queda significativa em relação aos valores praticados antes da concorrência, que chegavam a R$ 2 mil. Essa redução tem sido apontada como um dos fatores que facilitam a ampliação do acesso à terapia.
Como funciona a inclusão no SUS
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a inclusão das canetas emagrecedoras no SUS seguirá um protocolo rigoroso, mas ao mesmo tempo buscará ampliar o direito ao tratamento para quem realmente necessita. O objetivo é que a medicação seja disponibilizada como parte de um programa integrado de combate à obesidade, que inclui acompanhamento nutricional, prática de atividade física e monitoramento clínico.
O governo já lançou, em junho, o projeto‑piloto Real‑Bari, que tem a finalidade de avaliar a custo‑efetividade da semaglutida na rede pública. O estudo, com duração prevista de dois anos, acompanhará 250 pacientes com obesidade grau 3 em Porto Alegre, no Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Os resultados preliminares já indicam perda de peso e mudanças de comportamento nos primeiros participantes.
Critérios de elegibilidade e acompanhamento
Para ter acesso ao medicamento pelo SUS, o paciente deverá atender a critérios clínicos definidos pelo Ministério da Saúde. Os principais requisitos são:
- Obesidade grave (IMC acima de 40 ou acima de 35 com comorbidades associadas);
- Presença de doenças relacionadas, como hipertensão, diabetes tipo 2 ou dislipidemia;
- Indicação para cirurgia bariátrica ou histórico de falha em tratamentos convencionais por, no mínimo, dois meses;
- Avaliação médica que comprove a necessidade e a possibilidade de adesão ao tratamento.
Além da prescrição, o paciente será inserido em um programa de acompanhamento multidisciplinar. Cada caso será monitorado por equipe composta de médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas, que registrarão evolução de peso, circunferência abdominal, parâmetros metabólicos e qualidade de vida.
O primeiro paciente que recebeu a medicação pelo SUS estava na fila para cirurgia bariátrica. Em poucas semanas, ele perdeu seis quilos, reduziu a circunferência da cintura e começou a adotar hábitos mais saudáveis, como caminhadas diárias e auxílio nas tarefas domésticas.
Desafios e perspectivas para o futuro
Embora a iniciativa seja celebrada como um avanço na política de saúde pública, especialistas alertam para a necessidade de cautela. O uso indiscriminado pode gerar demandas excessivas e sobrecarregar o orçamento da saúde, principalmente se a adesão ao tratamento for maior do que o previsto.
Padilha enfatizou que a estratégia será implementada de forma responsável, priorizando pacientes que apresentem maior risco de complicações cardiovasculares ou que necessitem de intervenção cirúrgica. A ideia é transformar a caneta emagrecedora em um direito, mas dentro de um marco regulatório que garanta sustentabilidade financeira.
O estudo Real‑Bari deverá fornecer dados essenciais para definir políticas de longo prazo, como a ampliação do programa a outros estados e a inclusão de novos medicamentos da mesma classe. Caso os resultados demonstrem eficiência clínica e econômica, o SUS poderá ampliar o número de vagas e reduzir ainda mais os custos para o usuário final.
Em paralelo, a Eurofarma anuncia investimentos em produção nacional, o que pode gerar empregos e fortalecer a cadeia produtiva de biotecnologia no interior de Minas Gerais. A parceria com a Novo Nordisk também abre portas para transferência de tecnologia e desenvolvimento de novas formulações voltadas a outras doenças crônicas.
Para a população, a medida representa mais uma ferramenta no combate à obesidade, que já é responsável por cerca de 10% das mortes evitáveis no país. A expectativa é que, combinada com políticas de educação alimentar e incentivo à atividade física, a disponibilidade das canetas emagrecedoras contribua para a redução de comorbidades e para a melhoria da qualidade de vida de milhões de brasileiros.








